Mar me quer 29 Maio, 2008
Posted by Monica Carvalho in Amigos, Literatura.add a comment
Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.
Mia Couto
No último sábado, Bia K chegou do Brasil logo de manhã e foi direto para minha casa, no Porto. Rapidamente saímos para bater perna na cidade, o que fizemos com bastante afinco. Na rua de Santa Catarina paramos no Café Majestic, onde eu comi a tosta de queijo mais cara da minha vida. Depois corremos por todas as lojas e ruas quando a fome nos apanhou e partimos em direção à Ribeira para almoçar. Tudo muito típico: ela, sardinhas assadas com batatas e pimentos, e eu, alheira com salada e batatas. Atravessamos a ponte Dom Luís para, em Gaia, visitar uma das dezenas de caves de vinho do Porto. Escolhemos a cave Cálem. Em seguida fomos até a Livraria Lello e eis que lá, justamente no res-do-chão, encontro um belíssimo livro de capa dura de Mia Couto, Mar me quer. Mais uma vez acabei comprando um livro por causa do primeiro parágrafo. Está se tornando cada vez mais comum isto… O parágrafo é o que está aí em cima, na epígrafe deste post. O livro já está lido e só tenho a dizer que é simplesmente maravilhoso.
- Vê as estrelas, Zeca? Sabe o que elas dizem?
- Não mãe.
- Sabe, filho, a noite é uma carta que Deus escreve em letrinhas miuditas. Quando voltar da cidade você me há-de ler esta carta?
- Sim, mãe.
O estilo do moçambicano Mia Couto lembra o do nosso Guimarães Rosa no que se refere ao uso de neologismos e ao regionalismo. Contudo seu texto pode ser considerado uma espécie de prosa poética de altíssima qualidade que há muito tempo eu esperava ler. Sim, eu sempre desejei ler algo como eu li na terça à noite, mas nunca tinha encontrado.
Neste livro - pois ainda não sei se isto é uma constante em seus textos, mas hei de sabê-lo -, Mia Couto utiliza as profundas relações de um pescador com o mar para falar de amor e morte, como se ambos fossem duas faces de uma mesma moeda. O livro veio bem a condizer, pois há tempos penso na morte como um evento que carrega muitas mensagens para além dela mesma e que, talvez, justamente estas mensagens sejam mais importantes que a própria morte em determinados contextos.
O mar tem um defeito: nunca seca. Quase prefiro o pequenito lago da minha aldeia que é muito secável e a gente sente por ele o mesmo que por criatura vivente, sempre em risco de terminar.
Deliciosas noites de mirtilo 18 Maio, 2008
Posted by Monica Carvalho in Cinema, Música, Video.add a comment
Eu sempre soube que blueberry era blueberry, ou seja, aquela frutinha roxo-azulada que os ingleses usam pra fazer uns bolinhos deliciosos. Pois aqui em Portugal blueberry é mirtilo. Mas não foi esse o nome usado aqui, no título em português do último filme do Wong Kar Wai, My Blueberry Nights.
O filme, tem Norah Jones, ótima, em super estréia como atriz, as maravilhosas Natalie Portman e Rachel Weisz e o Jude “tasty” Law. A boa surpresa ficou para o David Strathairn, desconhecido para mim, e excelente no papel de policial-apaixonado-auto-destrutivo.
Uma característica que eu acho interessante no Wong Kar Wai é como ele torna o espectador íntimo dos personagens. Todos, aliás, são sempre muito complexos e mais profundos do que na maioria dos filmes atualmente. Ele trabalha muito com close-ups, muito intensos para os atores, que têm que ser excelentes, pois a esta distância é difícil enganar quem quer que seja. Por isso, ele faz questão de trabalhar com quem nasceu para convencer. Até mesmo quem faz cenas rápidas, parece muito bom.
A trilha sonora, para variar, é sempre divina e com o “detalhe” de que é do Ry Cooder, ou seja, muito blues. Ouça, por exemplo, “Try a little tenderness” na box azul ao lado, muito conhecida por nós pela versão do The Commitments, mas aqui com a original do Ottis Redding, autor do clássico. Sem palavras…
As cores também são sua marca. Pelo titulo do filme já se vê que ele carrega nos vermelhos e todas as suas variações. E a noite marca a luz ambiente predominante de seus cenários bem urbanos, embora ele apele sempre para veículos bem tradicionais de comunicação entre seus personagens. Afinal, alguém imagina, hoje em dia, amar sem telefone, nem email? Wong Kar Wai parece adorar refletir o anacrônico.
Fora que o roteiro, putz, nem se fala, doce e um pouco azedo, como o mirtilo; doce e sofrido como a suave voz de Norah Jones cantando “The Story”.
Delícia de película…
Abaixo veja o trailler passado na Inglaterra, melhor que o dos EUA…
Bairrismo reeditado 11 Maio, 2008
Posted by Monica Carvalho in Sem categoria.1 comment so far
Há pouco tempo, em 17 de março, escrevi como eu me sentia desencantada em relação ao bairro em que eu vivia. Na ocasião, viva integralmente em Coimbra e estava bem desconectada de tudo o que por lá acontecia. Cheguei a dizer:
Meu bairrismo é como o Deus de qualquer beata fanática religiosa: seu Deus é o único que presta.
Isto porque só me reconhecia como bairrista no bairro em que tinha nascido e vivido até maio de 2007.
Pois bem, nada como um dia após o outro. Eu agora passo a semana toda no Porto e vivo num bairro que além de me remeter à cidade em que nasci, sinto-me fazendo parte dele. Ali eu consigo interagir com os vizinhos e com o comércio local, coisa que não conseguia fazer em Coimbra.
Em breve vou postar aqui algumas fotos deste meu novo bairro…
Ao sabor das ondas 6 Maio, 2008
Posted by Monica Carvalho in Portugal, Reflexões.add a comment
A partir de agora a maior parte do que eu aqui escrever passa a ser feito da cidade do Porto. Mais uma mudança que acontece em um ano, desde que me mudei para Portugal. O motivo foi profissional, mas sinto-me satisfeita por voltar a circular numa cidade maior e morar num bairro de verdade, onde, para além das boas opções culturais que uma cidade tem, também tenho uma bela vista do rio Douro e um mar do qual eu já estava aflita por não tê-lo mais assim tão perto.
Nasci no Rio de Janeiro, no Bairro de Fátima, e nunca tinha saído de lá até o dia 4 de maio de 2007. Portanto, sempre estive mais ou menos perto do mar. Talvez por isso sua presença fosse até então como o sol: mesmo em dias nublados, sei que ele está por lá e não pensava tanto a respeito. O mar para mim também era assim, não precisava ouvir o barulho das ondas, mas sempre que quisesse ele estava lá ao pé.
No entanto, desde que vim para Portugal, mais especificamente para Coimbra, comecei a perceber a falta que o mar me fazia. Ele me acalma e, por mais incrível que pareça, sua inconstância me transmite segurança. Fico feliz em estar agora até mais perto dele do que quando vivia no Rio.
Que Iemanjá sempre nos abençoe!