Cara e coroa 29 Outubro, 2006
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Jogo a moeda para o alto e aperto o slow motion. Perco-me no movimento da moeda. Vejo cara e coroa se alternarem. Ambas são duas faces interessantes, penso. Vou até o banheiro, bebo um copo d’água e a moeda continua lá, girando, lentamente. Ligo a TV para ver as últimas notícias, todas iguais as de ontem. Navego na internet em busca de alternativas, escolho uma ou duas e envio emails. Do canto do olho, percebo que a moeda continua lá, girando, girando. Resolvo tirar um cochilo, mas antes brinco com meus gatos. Durmo com um deles sobre minha barriga. Toca o telefone e alguém me pergunta coisas, sugere outras e desliga. Ainda meio sonada, olho a moeda que gira. Meus olhos fecham e abrem, num movimento descontínuo, mistura de tédio e sono. Meu gato ronrona e depois vai beber água. Não tenho pressa em saber, mas ainda assim, cansei-me de ver a moeda a girar. Aperto o play e a moeda cai. Deu cara. Sorrio e penso: “engraçado, eu já tinha escolhido coroa”.
Diálogo diet 3 Setembro, 2006
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Da série pra bom entendedor, meia-palavra basta.
- Então?
- Sou.
- Daí?
- Ué…
- Diz.
- Quê?
- Ora,
- Eu?
- É.
- Tá.
- Quem?
- Tu.
- ????
- Aí…
- Vi (risos)…
- Pô!
- Ok.
- Tá.
- Ei:
- Não.
- Ahn?
- NÃO!
- Vai?
- Fui!
Conde 7 Agosto, 2006
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Foi muito chão até chegarmos à entrada da cidade. Tanto que diante do sinal de Benvindo a Conde, achei que poderia encontrar algo como Você ainda está na Bahia. Conde fica perto da divisa com Sergipe. Estávamos muito perto de Mangue Seco, de Tieta do Agreste, Canudos. Muito distantes de Antonio Conselheiro, Jorge Amado e do resto do mundo.
Dois homens a cavalo denunciavam que o local, apesar de à beira-mar, estava um pouco parado no tempo. Ótimo, pois a idéia era essa mesmo, postergar o final da viagem ao máximo.
O tempo, inclusive, estava ao nosso favor. Tínhamos saído bem cedo e já passáramos em Arembepe para ver uma das últimas comunidades ripongas de que se tinha conhecimento e na Praia do Forte para conhecer o “forte”. No forte, lembrei-me do quanto eu teria adorado fazer arqueologia… Passei a maior parte do meu ensino médio ligada nessa história, mas meu pai acabou me convencendo de que não seria uma boa idéia, já que a área era muito pouco valorizada no Brasil. Alías, ainda é, mas hoje as coisas já estão melhores que há vinte anos atrás. Como adoro revirar o passado, acabei entrando para a psicologia e apesar de a área também não ser das mais valorizadas, assim mesmo fui até o fim. Mas esta é outra história…
Paramos numa encruzilhada, já na vila de Conde e perguntamos para onde eram as praias.
“Fica no sítio. Vocês poodem dar uma carona até lá?”
A dona cobrou a informação na hora. Sem problemas, nada como uma boa conversa com estranhos na Bahia. Ela entrou com uma menina, Sara. Linda demais. Negra, olhos enormes e muito vivos, mas tímida, muito tímida. Pensei que era sua neta e minha boca mais uma vez não me limitava a pensar.
“Ter filho depois dos quarenta é assim mesmo.”
A dona parecia ter bem mais de quarenta. Sua pele era bastante castigada pelo sol, alguns dentes lhe faltavam na boca e sua voz tinha um timbre meio senil. No caminho tivemos que parar num pedágio de estudantes.
“Nós estamos nos formando no colégio, vocês podem colaborar para nossa formatura?”
Tirei dois reais da bolsa e gritei para os jovens para que eles não parasssem os estudos após a formatura. Todos riram, inclusive eu. Meu ato desengonçado e desesperado tentava mais uma vez conter o tempo da falta de oportunidades, preço que a maior parte das pessoas de Conde teria que pagar, mesmo acabando parte dos estudos.
Eu continuava olhando para Sara, esperando apenas um olhar, pois seu sorriso seria meio difícil. Enquanto isso, sua avó, ou melhor, sua mãe, nos contava que era de Salvador. Não perguntamos o que ela fazia naquela cidade, nem o porquê de ir para a capital e voltar sempre para Conde. Eu, com minha mentalidade sulista e de classe média, imaginei que ela trabalhava em algum sítio ali perto. Dessa vez, contudo, limitei-me a pensar.
Após o pedágio, o caminho se desenhou a nossa frente como um dos mais bonitos já visto: coqueiros pouco resistentes à força do vento, gado magro e livre, jumentos correndo atrás de suas fêmeas. Atmosfera de pouca resistência à natureza, mas muito resistente ao tempo. Deixamos Sara e sua mãe-vó no lugar que pediram e seguimos até a praia, marzão aberto e agressivo, pouco convidativo ao banho. O vento era tamanho que não nos deixava muito ansiosos por este fato: as coisas pareciam estar em seus lugares. Será?
Antes de sair do carro Sara me olhou nos olhos e sorriu. Mandei-lhe um beijo.
“Tenha juízo…”
Nem eu mesma entendi o que eu queria lhe dizer com esta frase, afinal, isto não significa nada para uma menina de apenas quatro anos. Eu e minha mania de querer salvar o mundo… Uma estranha consicência sebastianista, sabe-se lá o porquê…
Auto-resgate 17 Junho, 2006
Posted by Monica Carvalho in Contos.2 comments
Mary estava na piscina onde nadava há alguns meses. Na verdade, ela aprendia a nadar. Primeiro aprendeu a não afundar como um prego. Depois, o “nado” cachorrinho. Estava na fase do uso da prancha de isopor, ganhando forças nos pés e nas pernas. Próximo passo: nado livre ou crawl.
A piscina era meia-olímpica, tinha vinte e cinco metros. Naquela aula, porém, dividiram-na em duas de doze e meio. Havia muitas crianças e, apesar de todas estarem no lado mais raso, nenhuma delas enconstava os pés no chão.
Cansativo isto, pensava.
Pelo jeito outros pensavam o mesmo e um menino-sem-noção subitamente se agarra nela. Não, ele não morria de amores por Mary, nem queria ficar mais perto dela, mas em seu esforço inútil de se manter segurando na raia e não afundar, ele acabou optando por segurar na menina.
Quem sabe ela não me dá uma mão, pensou o garoto? Não, garotos-sem-noção não pensam.
Os dois afundaram. Mas antes, ainda houve tempo para que ela gritasse pelo nome da professora de forma audível e desesperada.
Blop, blop, volta para a superfície a tempo de ver a professora atravessar rapidamente de um lado ao outro da piscina, num salto digno de Tom Cruise em Missão Impossível. Agarra o moleque afogante e afogado. Mary, porém, esgotada e tendo engolido toda aquela água mijada e clorada, tenta se agarrar na professora, afinal ela também queria ser resgatada.
Não, você sabe nadar, disse-lhe.
Foi assim que com apenas oito anos, Mary começou a ver que sua missão era se auto-socorrer. Daí em diante seria vista como capaz, equilibrada, centrada, poderada. Testava os limites dos outros para, quem sabe, demovê-los dessa idéia estranha. Mas quanto mais falava bobagem, era antipática, arrogante, confiante e, assim, irritando muita gente, todos ainda pareciam acreditar que ela sabia realmente nadar e que não importava o que acontecesse, Mary sempre conseguiria evitar seus próprios afogamentos.
Vendendo o peixe 1 Abril, 2006
Posted by Monica Carvalho in Contos.2 comments
Peixes. Mas desde muito jovem já queria ser escritor. – Era a primeira entrevista de Sérgio ao suplemento literário do maior jornal do país.
Durante vinte anos trabalhei no ramo da aquariofilia. Sei fazer tudo: escolho o aquário, algas e ornamentos para os peixes; sei o tratamento adequado para cada um deles, mesmo em caso de doença e, além disso, também monto o aquário, entrego prontinho para o cliente. Trabalhei com todo tipo de peixe ornamental: de água salgada e doce, nacionais e importados. Mas, sabe como é, depois de vinte anos fazendo a mesma coisa, não dá. Olha que eu trabalhei em todas as grandes empresas do ramo que tem na cidade.
São apenas três. Numa delas eu fiquei dois anos, na outra seis e na última, oito anos.
Realmente, nessa área não iria nunca me faltar trabalho, pois eu era muito solicitado. Uma coisa é o vendedor que gosta dos peixinhos, outra é o cara que sabe e entende como e o que fazer neste setor. Há poucos especialistas como eu, mas eu não agüentava mais fazer a mesma coisa. Além disso, acabava não compensando tanto assim financeiramente, pois cheguei a um ponto em que eu não tinha mais como crescer, a não ser que eu tivesse a minha própria empresa. Mas como eu já estava meio cansado de tudo, isto nem passou pela minha cabeça.
Não deixa de ser. Depois de vinte anos fazendo a mesma coisa é difícil fugir totalmente do assunto. A coisa é tão forte na minha vida que, repara bem, do meu livro mesmo eu ainda nem consegui falar aqui, só mesmo de minha atividade anterior. Isso não é louco? Vinte anos fazendo a mesma coisa e parece que aquilo que você faz não é uma atividade profissional, um ganha-pão como outro qualquer, a coisa se integra a você como se fosse uma parte do seu corpo, não dá para se desligar assim, de repente.
Acho que foi um tanto metafórico o tema do livro. Como se eu quisesse realmente apagar algo da minha vida que eu não queria mais ter, ser ou mesmo guardar na memória.
É verdade, sei que isso é impossível. Talvez por isso tenha se transformado num estranho thriller psicológico. De certa forma, o mundo aquático foi minha fonte de inspiração e maior referência ao escrever, mas não foi da forma tranqüila como a maioria das pessoas tende a pensar quando imagina o universo dos peixes. Aliás, esse é um grande equívoco, entende? O universo marinho é cruel. Para quem assiste aos canais de documentários talvez entenda em parte, mas para quem trabalha com peixes é assustador ver como os peixes são agressivos e disputam espaço, comida, predomínio frente aos outros peixes etc.. Há espécies de peixes que não podem conviver com outras no mesmo aquário, pois se exterminam mutuamente. Foi toda essa contradição do universo aquático – aquilo que as pessoas percebem e o que realmente acontece na convivência entre os peixes - que me levou a um thriller psicológico.
Sim, toda a simbologia pisciana também foi utilizada para compor os personagens. Tinha que esgotar todas as possibilidades criativas e todos os recursos simbólicos que eu possuía ao escolher como pano de fundo a vida aquática. O fato de eu ter passado vinte anos fazendo a mesma coisa não me impediu de fazer leituras totalmente diferentes daquilo que eu fazia diariamente.
Jung foi minha base teórica para pensar psicologicamente o thriller. Também fiz muita pesquisa astrológica. A busca sobre a simbologia da água me levou a muita coisa diferente além da astrologia, pois a água é sempre considerada um dos quatro ou cinco elementos em diversas interpretações míticas sobre o universo em diversas culturas.
Na literatura? É até difícil dizer, pois eu simplesmente devoro quase tudo o que me cai nas mãos: desde textos de consumo fácil, tais como policiais, romances e thrillers psicológicos – alguns são best sellers –, até literatura considerada de qualidade, nacional e estrangeira. Tenho uma biblioteca de mais ou menos mil e seiscentos volumes em casa e por aí você pode supor a quantidade de livros que eu leio.
É, pode parecer muita coisa para quem vendeu peixes a vida toda.
Eu entendi o que você quis dizer, não levei isso a mal. Claro que não li todos inteiramente, ou seja, da primeira à última página, se você quer saber. Muitos são livros para consulta, úteis ao meu trabalho de pesquisa ao escrever meus textos.
Não deixa de ser uma tentação, afinal, ainda é o universo sobre o qual entendo mais. Ainda assim, tenho pensado a respeito, pois o aspecto da simbologia tem se tornado mais atraente ao produzir thrillers.
Não, quer dizer, ainda não sei. Pode ser um romance, sei lá. Ainda estou refletindo a respeito. Meu editor não está me pressionando, ao contrário, me deixou muito à vontade de modo que eu não preciso repetir a fórmula de sucesso do meu primeiro livro.
Touro – risos.
Personagens-fantasmas 17 Novembro, 2005
Posted by Monica Carvalho in Contos.add a comment
Alguns personagens adquirem vida própria, independentemente da qualidade dos textos que os acolhe. Tenho — acho que nem posso me dar ao direito de pensá-los como meus — dois personagens muito queridos: Bráulio e Rube. Ele é um senhor cego e solitário, que se sente órfão. Ela, bem, é ele, um travesti muito sensível e simpático que tem até trilha sonora, uma música cantada por Ray Charles. De vez em quando eles me vêm à mente, me cobrando uma decisão para suas vidas, me cobrando uma narrativa digna. Rube, então, parece gritar… Ela exige sua hora da estrela e sempre me aparece cantando sua canção…
They say, Ruby you’re like a dream
Not always what you seem
And though my heart may break when I awake
Let it be so, I only know
Ruby, it’s youThey say, Ruby you’re like a song
You just don’t know right from wrong
And in your eyes I see heartaches for me
Right from the start, who stole my heart?
Ruby, it’s you
I hear your voice and I must come to you (must come to you)
I have no choice, so what else can I do ? (what else can I do?)
They say, Ruby you’re like a flame
Into my life you came
And though I should beware, still I just don’t care
You thrill me so, I only know
Ruby, it’s you
(I hear your voice and I must come to you)
(I have no choice, what else can I do ?-what can I do?)
They say, Ruby you’re like a flame
Into my life you came
And though I should beware, still I don’t care
You thrill me so, I only know
Ruby, it’s you