Primavera 3 Abril, 2008
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É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha*;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!Florbela Espanca
No fim de semana retrasado mesmo, ao passar a pé pela Escola Agrária, reparei nas videiras e elas estavam com seu corpos retorcidos ainda nus. Passei lá hoje novamente e algumas folhas já começam a despontar aqui e lá, anunciando a safra de 2008.
Aqui, a primavera parece que faz sentido e sua chegada é sentida alegremente. Hoje foi o primeiro dia verdadeiramente quente do ano. Quando passei em frente ao termômetro de rua, às cinco e pouco da tarde, marcava 27 graus. Pela primeira vez este ano, saí com uma calça de linho, uma blusa de manga curta bem leve e um casquinho de linha fininho sobre as costas, para não ser pega desprevenida por um vento mais fresco. A verdade é que nem usei o casaquinho.
Agora à noite está mais fresco, mas muito agradável. Eu já estava cansada de usar casacos pesados e de andar com as mãos nos bolsos. Quem me conhecer e me ler aqui vai estranhar, mas estou torcendo para que este verão seja “de lascar”. Ou seja: nada poético e todo e somente prosa. Porém, torço também para que não haja florestas queimadas…
* estamenha: tecido de lã leve; hábito de frade
Releituras 17 Março, 2008
Posted by Monica Carvalho in Crônicas, Leituras, Portugal.4 comments
Não sou do tipo que relê livros. Já reli alguns contos, alguns trechos, alguns artigos, mas faço-o muito raramente. Contudo, às vezes, páro para reler-me. Gosto de ver como eu sentia ou pensava no passado. Confesso que ter um blog facilita muito as coisas.
Escrevi-o há pouco mais de dois anos neste blog. Naquela ocasião eu me descobri apaixonada pelo meu bairro, o lugar onde nasci e de onde nunca tinha saído. Não imaginava que pouco mais de um ano depois eu estaria longe, aqui em Coimbra.
Não sei se ainda serei no meu bairro e não estou numa fase nem um pouco bairrista. No meu atual bairro, sinto-me numa ilha, onde as pessoas e eventos me inspiram muito pouco. Os lugares que mais frequento, faço-o bem pouco: a padaria, quando quero tomar uma meia de leite e comer uma tosta mista, e a papelaria, onde compro envelopes, revistas e jornais.
O frio também deixa meu bairro meio triste. minha casa fica no topo de um grande vale, a Escola Agrária, onde venta muito, sempre. Percebo que não acredito no bairrismo, não neste meu atual bairro. Logo, hoje, o bairrismo deixou de ser uma seita, como disse há dois anos, para tornar-se uma religião: é apenas no bairro onde nasci, me criei e vivi até o ano passado que é possível haver crença no bairrismo.
Meu bairrismo é como o Deus de qualquer beata fanática religiosa: seu Deus é o único que presta.
Crônica do "bom texto" 21 Abril, 2007
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Não se iludam aqueles que recebem um elogio por terem escrito bem um texto. Um bom texto é como um bronzeado de verão.
O bronzeado de verão permanece enquanto há sol para ir à praia. Ele não dura até o verão seguinte. Não me refiro ao bronzeado conseguido à custa de bronzeamento artificial. Falo do bronzeado que se adquire a partir de idas constantes à praia, nos horários em que o sol não esfola a pele. Assim, gradativamente, surge aquele tom dourado, mais claro ou mais escuro, que depende apenas do tom natural da pele.
Da mesma forma é o “bom texto”. Quando escrevemos bem um texto, isto não significa que todos os textos seguintes também o serão. Assim como o bronzeado de verão, o bom texto não transfere ao texto seguinte sua qualidade de bom texto. Isto porque, a qualidade da boa escrita não é “congênita” no escritor. Lembremos que a produção de um bom texto não se dá por mitose.
Embora haja pessoas que me considerem arrogante, ressalto que, receber elogios por ter escrito um bom texto, jamais me levou a pensar que tudo o que eu escrevesse, a partir de então, pudesse ser considerado bom. A cada texto que leio ou escrevo, vejo que ainda falta muito para que eu consiga escrever um texto realmente bom. Por mais leonina que eu seja, elogios não me levam à acomodação. Ao contrário, me levam a crer que algo muito melhor pode ser feito. A arrogância, talvez, se encontre no fato de que eu acredito que sou capaz de fazer algo muito melhor. Afinal, se eu acredito na capacidade de auto-superação dos seres humanos, porque não aplicar esta crença a minha própria vida?
O “bom texto” não é um troféu ou um diploma. Da mesma forma, ele também não é pré-requisito, nem degrau necessário à chegada ao andar superior da boa escrita.
Reparemos no sujeito “sarado” que acabou de sair da academia. Ele está encharcado de suor e fede. Se tivéssemos a oportunidade de vê-lo “malhando” nos aparelhos de musculação, veríamos suas caras e bocas, sinal do esforço físico que precisa fazer para manter-se como objeto de desejo de homens e mulheres. Contudo, se ele parar de se exercitar por três meses seus bícepes e trícepes perdem o vigor que tinham antes.
Eu estou pálida, com aquela cor “morena” amarelada que todos conhecem. Meus músculos estão vazios de sentido: se eu não me cuidar, meus joelhos vão começar a doer novamente. Meu texto ainda precisa ser exaustivamente “malhado” para que chegue perto do que eu considero realmente uma boa escrita. Mas, não vou pedir-lhes desculpas pelo fato de acreditar que posso conseguir um lindo bronzeado de verão, deixar meu corpo em forma ou escrever o melhor texto da minha vida.
Nova escova 24 Outubro, 2006
Posted by Monica Carvalho in Crônicas.7 comments
Com suas versões progressiva, definitiva e irrecuperável, acaba de ser lançada a Escova Dolly. O tratamento capilar faz você se sentir uma verdadeira boneca. A técnica é muito simples: trata-se de uma nova modalidade de escova feita a base de excremento de ovelha geneticamente modificada. Dizem que é ma-ra-vi-lho-sa. O único problema é o cheiro de merda que fica nos cabelos. Mas, sinceramente, o que as mulheres não fazem para terem um liso “natural” ao qual Deus lhes recusou só pra dar mais trabalho e despesa? Ninguém merece tanta exclusão!
A versão irrecuperável é a mais radical, pois sabe-se que após algum tempo de tratamento você se “acostuma” com o cheiro e nunca mais deixa de fazer a tal da escova.
Queridas, calculem bem a relação custo-benefício.
Eu acho que vale a pena!!!!
Tematização ou reprise noticioso? 9 Agosto, 2006
Posted by Monica Carvalho in Crônicas.add a comment
Alguns alunos têm dificuldade de perceber o que é tematização. Não sei o porquê, mas eu muitas vezes não entendo bem o motivo de os alunos não entenderem diversas coisas. Um amigo “mineiro”, e também professor como eu, talvez entenda melhor que eu.
Pois bem, tematização é colocar numa mesma página de jornal notícias não correlacionadas mas que acabam conduzindo a uma opinião sobre um mesmo assunto. Um exemplo: favela, PCC e violência urbana na mesma página. Ok, podem ser da mesma editoria, mas todas juntas, dependendo do “tom”, podem levar a uma determinada opinião sobre a criminalidade.
Tematização parece um déjà vu, mas não é uma falha na matrix.
Reparem as duas chamadas a seguir. Ambas estavam na primeira página do Globo Online agora à noite.
Avião da TAM perde porta em pleno vôo
Rodrigo Santoro começa a gravar o seriado ‘Lost’
A TAM é nossa empresa campeã de eventos aéreos estranhos, sobretudo com seu Fokker 100, avião pivô também de mais este episódio. Logo a seguir, vemos mais um de nossos atorzinhos tentando a vida nos EU. Ele vai ficar tão lost quanto as dezenas de personagens deste seriado que mais parece uma novela de Glória Perez, com direito a muitos personagens perdidos, desconectados do mundo real, sugerindo uma atmosfera espiritual por trás de toda a trama em torno da queda de um avião onde — creiam — uma cabeçada se salva (?).
Ai, ai, tudo isto pode ser complementado pela notícia, ainda na mesma página, sobre a entrevista da candidata Heloísa Helena, do PSOL, no Jornal Nacional. Nunca a defendi, nunquinha, mas a dona foi alvejada pela artilharia aérea da Globo, dirigida pelo casal nada flores do horário nobre. William Bonner, num ato-falho medonho, chegou a chamá-la de deputada, mas em seguida se desculpa e corrige para senadora.
Não considero que deva ser este o papel do entrevistador dos candidatos. Deve-se questionar a respeito de sua proposta de governo e isto, decididamente, não foi o foco da entrevista. Heloísa Helena virou mais um submarino amarelo afundante em frente às câmeras: é muito impulsiva para quem faz política, precisa ser um pouco mais cínica do que chamar Bonner e Fátima Bernardes de “meu amor”. Aliás, só muito amor é capaz de salvar esta senhora, Lost e algumas empresas aéreas brasileiras.
Batalha campal 26 Junho, 2006
Posted by Monica Carvalho in Crônicas.1 comment so far
Vi o jogo entre Portugal e Holanda, ontem, ao lado de um português, meu pai. O título deste post, inclusive, foi dito por ele, enquanto conversava com um patrício, pelo telefone, após o jogo.
Portugal tem séculos de história entalados na garganta. Vive lamentando seu poderio marítimo perdido muito a contragosto. Ontem, na Arena de Nurenberg, o país resolveu cobrar todos os prejuízos causados pela Holanda.
Tudo começou no hino:
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Ali já era um recado do que viria pela frente. Mas, os ânimos foram mais atiçados após o hino da Holanda, quando este enleva Mauricio de Nassau à categoria de herói nacional. Os portugueses que vivem na Holanda e são discriminados lá, neste momento, fizeram um sinal para Figo, capitão do time: ele deveria comandar também o processo de desforra.
Tudo estava planejado desde o início, mas os holandeses fizeram o favor de danificar o craque da seleção portuguesa de maneira cruel e agressiva logo no primeiro tempo. O fato apressou o inadiável momento de glória e apesar da posse de bola pela Holanda, Maniche com a categoria de um lord, faz um golaço que treme o mundo, habitat natural da portuguesada aventureira que saiu para povoar o planeta. Cristiano Ronaldo teve que sair logo depois e chorou no banco, como um um herói que, seco pela vitória, mas muito mais pela luta, deixa o campo livre para que seus colegas lhe vinguem a ousadia e a maldade de Bronckhorst.
Depois disso, o campo de futebol virou um ringue. Incontáveis foram as vezes em que os médicos de ambas as seleções entraram com gelo e muita massagem de modo a acalmar os ânimos. Mas nada tornava o jogo mais fácil ou mais simples. Não bastava chutar a bola e mirar o gol, antes algum jogador deveria cair em campo com uma cotovelada, uma tesoura ou um safanão.
Enquanto isso Galvão Bueno tratava de “manter a calma” do lado de cá e tal como um típico narrador português “esquecia-se” de dizer onde estava a bola. Por isso, enquanto cartões amarelos e vermelhos eram distribuídos a mancheias pelo árbitro russo, Galvão anunciava o quadro dos adolescentes surdos-mudos do Fantástico.
Ele é um historiador, reclamava meu pai.
E como muitos historiadores, acabam deixando passar o melhor dos acontecimentos. Mas, aos poucos, descobríamos com nossos próprios olhos que Portugal estava ali para limpar seu nome na história, nem que fosse ao custo de muitas tamancadas nas canelas, é verdade.
Resta saber como será com a Inglaterra. Há muito eles têm do que reclamar dos súditos da rainha. Em 66, por exemplo, na Copa da Inglaterra, mudou-se o local do jogo de Portugal, o que levou o time a viajar por 24 horas de ônibus. É claro que depois de uma viagem dessas o time pode ter ficado bem prejudicado. Portanto, assim como Deco, ontem no jogo contra a Holanda, em 66 Portugal foi retirado de cena de forma desleal. Vamos ver, então, o que o ingrediente melancolia lusitana mais Filipão é capaz de fazer do time da camisa encarnada, mesmo que desfalcado pelas expulsões e advertências.
Espero apenas que alguém mais honesto com a realidade que acontece em campo seja escalado para narrar o próximo jogo de Portugal e as adagas voadoras.