Multiplicação 22 Agosto, 2007
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Há pessoas que não têm quase nada e conseguem fazer um banquete na vida. Ontem faleceu um irmão da época do movimento espírita que tinha exatamente esta característica. Embora tenha tido tantas dificuldades desde o início de sua breve vida, Edson construiu uma família de amigos com quem compartilhava seus talentos.
Lembro dele a ler “Genealogia da moral”, de Nietzsche; de suas peças de teatro; de sua letra e modo de escrever com a caneta entre os dedos indicador e médio; de sua autoconfiança incrível e grande teimosia; de sua força física (eu nunca o vi doente até o ano passado); ao violão tocando Legião Urbana e tantas músicas espíritas; carregando seu enorme caderno de partituras; a organizar eventos; a falar de seu doutorado em educação ou de sua experiência como professor universitário.
Não sei com detalhes acerca de sua história de vida, mas sei que a pobreza e o abandono lhe fizeram marcas profundas. Isto, porém, não impediu que Edson construisse muita coisa a sua volta, com a qual me recordo com saudade.
Que, em outro plano de vida, ele possa usufruir do banquete que preparou com o pouco que lhe foi dado. Eu, de minha parte, apesar da tristeza, sinto-me contente por ter tido a oportunidade de conhecer mais esta alma vencedora.
Um abraço carinhoso em Edson.
Balancete e memória 30 Outubro, 2006
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Há exatamente um ano eu soube que Márcia estava no CTI. No dia seguinte eu descobria com o plantonista que faltava pouco para que se desse sua morte cerebral. Sobre isto eu escrevi neste blog.
Depois desse acontecimento, muita coisa mudou para mim. Passei a ver a vida de uma forma mais prática, do tipo: se bem, bom, se não, por que me estressar tanto? Também passei a considerar o que digo tomando como parâmetro aquilo que sinto: se gosto, se quero, se não gosto, se sinto, se não sinto, então digo algo de acordo, pois é o que vale. Com isso, pequenas atitudes diárias passaram a ganhar tamanha dimensão existencial, de bem-estar, de satisfação, ao ponto de muitas vezes eu me sentir muito feliz por ser quem sou e viver como vivo apenas porque estou tomando meu banho diário.
Eu não sigo nenhuma religião, não repito mantras, nem tenho rezas prontas, apesar de acender um incenso de vez em quando, mas faz um ano que minha vida assumiu uma dimensão “religiosa”, no sentido de uma religação profunda com o que há, com o presente.
Ontem me peguei com um sentimento de profunda gratidão com o passado. Não nos damos conta do valor do tempo, do valor do tempo que passou e de como este passado é capaz de transformar o presente. Hoje, quando fico em dúvida se vou ou não fazer algo, penso: se hoje fosse meu último dia de vida, valeria a pena fazer isso? De que modo isto pode realmente ser importante como evento no dia de hoje? É assim que decido e tenho sido muito feliz em minhas escolhas. Foi isso o que expressei em meu post de ontem.
Há uma ditado no Brasil que diz que a vida valeu a pena se tivemos um filho, escrevemos um livro e plantamos uma árvore. Sinceramente, hoje percebo as falhas de princípio dessa oração. Márcia não escreveu nenhum livro, apesar de ter criado e ilustrado estórias infantis. Não teve um filho, apesar de ter dedicado sua vida às crianças, como médica e como pessoa. E, pelo que sei, acho que também não plantou árvores, apesar de ser “sócia” do Jardim Botânico, pois adorava a natureza e estava sempre lá passeando. Portanto, mais que plantar, ter um filho ou escrever, é preciso respeitar a vida, no limite que a vida nos impõe, pois nós não somos senhores e muito menos disciplinadores do viver.
Sem tristeza, mas com saudade, dedico à minha amiga “Baião de quatro toques”, do José Miguel Wisnik, uma música que ela, certamente, gostaria de ouvir.
A música está ao lado e a letra está aqui.
E essa rua, onde vai dar? 2 Dezembro, 2005
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A experiência com a morte parece fazer morrer muita coisa além do corpo e leva a sentimentos que extrapolam a saudade. Uma torre parece estar ruindo dentro de mim e acho que outro edifício será construído em seu lugar. Por fora, como já disse em outro momento, tudo igual, apesar dos quilinhos a menos. Mas isso, hoje em dia, é considerado bom sinal. Por dentro, além do fígado em frangalhos, há algo em processo que ainda não foi finalizado. O que se passa internamente é somente o começo que, como em qualquer início, não é fácil. Depois eu vou me acostumar, sei que vou, e o que se seguirá será apenas a continuação daquilo em que me transformo hoje.
Resta saber quem serei eu depois de tudo isso…
Por favor, diretor, corta essa cena logo! 30 Novembro, 2005
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Ontem fui acordada e chamada de volta à realidade. Achei que fosse sábado, mas era apenas a terça-feira de uma semana quente do Rio. O tempo não passou nada. O pior é que sempre dizem que as dores curam com o tempo, não é mesmo? Hoje ainda é novembro de 2005 e tudo continua pior pra mim. Cada dia meu tem se transformado numa estranha mágica onde tudo parece possível e estranhamente legível. O minuto seguinte, a hora seguinte, o dia seguinte não representam mais o percurso natural do tempo como antes parecia me acontecer. O futuro me reserva sempre muitas surpresas e tenho receio disso, muito.
Engraçado como eu sempre adorei as surpresas e as quebras no meu cotidiano. Hoje, ou melhor, agora, rezo por um período de estabilidade. Nunca pensei em querer tanto, tão intensamente, que o mesmo permanecesse. Nunca desejei tanto que meus dias fossem iguais, que o esperado estivesse em seu lugar e que as surpresas estivessem a mil anos-luz de mim. Desejo descansar, mas não tem dado tempo, pois meu destino entrou em curto.
No final de outubro, comecei a atravessar uma larga avenida de mão-dupla, com sinal que fica vermelho por breves segundos. Não deu tempo de chegar ao outro lado e passou uma Besta sobre mim. Quando me levantava, ainda cambaleante, passaram algumas motocicletas que me deixaram tonta. Ainda tentando chegar ao meu destino, um ônibus escolar me deixou quebrada. Ainda me encontro no meio da rua, tentando atravessar, mas o sinal não fecha e os carros me deixaram em posição arriscada. Não sei se aguento mais um veículo passando sobre mim, muito menos um caminhão dirigido por um motorista embriagado. Não tenho condições de correr, não quero ficar parada, não sei voar. Até para respirar dói.
Quero ser uma pessoa comum, com dias comuns, que passa despercebida. Quero que o destino me esqueça. Quero não esperar nada do amanhã, além da possibilidade de acordar. Como meu pai me disse hoje: “eu preferia estar deitada embaixo da ponte”.
Minha saudade tem nacionalidade 29 Novembro, 2005
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“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da ruaA fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora.
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.”
Fernando Pessoa
Nada melhor que buscar em Portugal, mais uma vez, as raízes do que sinto hoje. Meu coração se parte e a saudade dói como a dor dos portugueses que sonham por uma terra que já não se pode mais conquistar. A saudade hoje tem nacionalidade. Também tem trilha sonora, dos Madredeus. Canção: Matinal, mas pode deixar tocar todas as faixas do Existir. Carlos Paredes também deve ser lembrado e os Trovante merecem ser tocados nesta solenidade.
Olho para o Tejo, iludida com a aparência de um rio que parece mar. Vejo a ponte que me leva para o sul me apontando para o calor e para as paisagens alegres do Alentejo, mas sigo para o norte, Ribatejo, em direção à Serra do Caramulo. Passo por Viseu, mas lá não fico, lá não quero permanecer.
Sigo voando por sobre as montanhas e, apesar de não estar de carro, relembro o caminho da estrada que me leva a Penedono, onde há um castelo solitário, numa terra pouco habitada. Ali, por sobre o castelo, como uma gaivota distante de seu habitat, decido que preciso parar. Pouso e vou até o bar da esquina, que é onde eles guardam as chaves do castelo.
Abro a porta do castelo e corro até os pavimentos mais altos desta construção medieval, que apesar de antiga está em perfeito estado. Paro diante de uma escada, encosto-me numa das milhares de pedras que ali seguram aquela austera, porém belíssima construção. Aguardo que meu primo se coloque diante de mim para tirar esta foto novamente.
Ninguém nunca conseguiu tirar de mim uma imagem dessas. Seu olho me revelou de uma forma sensível, desarmada, relaxada e bonita, como nunca vi, como talvez nem eu soubesse que eu podia ser. Esta foto não me mostra a imagem de Luís, mas o modo como ele me enxerga. Meu jeito estabanado de dizer as coisas jamais parece ter lhe atingido, pois ele parecia, naquele momento, que me via além da mera forma, aparência ou das minhas defesas.
No dia do seu casamento, quando eu já estava arrumada, penteada e pintada para ser sua madrinha, perguntei-lhe: “que tal? como estou?”. E ele não pensou duas vezes ao me responder: “oh, pá, tás como és: belíssima”. Como posso deixar de sê-lo depois que ele me diz algo assim? Parte do que sou, seja por fora e, hoje, muito mais por dentro, é fruto da feliz e agradável sensação de alívio por ter conhecido nesta vida uma pessoa como Luís: a pessoa mais pronta que já encontrei. Saber que além de tê-lo conhecido, também pude participar de forma especial de momentos que para ele foram tão importantes e saber que parte do que ele carregava nos seus genes também está presente nos meus, me deixa orgulhosa.
A nacionalidade da minha saudade é mixturada, também como eu: angolana e portuguesa.
A nacionalidade do meu sentimento por Luís não existe, pois a língua que falávamos não era desse mundo.
Educação para a morte e dignidade 21 Novembro, 2005
Posted by Monica Carvalho in Comentário, Morte.add a comment
“Rachel Adler: I just want to die with a little dignity.
Dr. Gregory House: There’s no such thing! Our bodies break down, sometimes when we’re 90, sometimes before we’re even born, but it always happens and there’s never any dignity in it! I don’t care if you can walk, see, wipe your own ass… it’s always ugly, always! You can live with dignity; you can’t die with it!”
da série House
Essa semana lendo uma resenha sobre o último livro de Eduardo Giannett, O valor do amanhã, foi destacado o seguinte trecho:
Se existe uma educação para o sexo, por que não pensar em algo semelhante para a morte - uma educação visando aprimorar nossa capacidade de elaborar e assimilar esse destino que, afinal, é comum a todos?
Estou curiosa para ler o livro, confesso. Queria saber o que mais Giannetti argumenta a respeito. Ainda assim, a partir do trecho, tenho dúvidas de que uma educação para a morte poderia melhorar nossa capacidade de assimilar e elaborar o que não há como evitar, afinal, já que ele utiliza a educação sexual como parâmetro, também não creio que as últimas décadas de educação sexual que tivemos necessariamente aprimoraram nossa capacidade de elaborar e assimilar o sexo, pois muitos fazem sexo como se fossem morrer amanhã mesmo.
Há algo importante na experiência da morte que só é possível saber experienciando e não se aprende ouvindo, lendo, vendo filmes ou cuidando dos doentes. Digo isto porque vi muita coisa estranha quando trabalhei numa enfermaria de um hospital. As que mais me marcaram foram o caso de uma paciente minha que vi suar sangue e morreu de septicemia (infecção generalizada) praticamente na minha frente; outra vomitou fezes, pois seu câncer no aparelho digestivo já tinha saído de controle e uma terceira, que desenvolveu um câncer pouco raro chamado teratocarcinoma. Para os que sabem latim, terato quer dizer monstro, e trata-se de um câncer que atinge células reprodutoras masculinas ou femininas. Como era uma mulher, atingiu um óvulo que se reproduziu loucamente como se fosse um bebê. Sua barriga cresceu como se estivesse grávida. Quando ela morreu, o tumor foi retirado e sua aparência era a de um monstro, já que tinha desenvolvido unhas, cabelos e uma série de outras características humanas. O mais estranho é que a moça era virgem. Na enfermaria seu caso era considerado bizarro e, apesar de pertencer a uma família muito religiosa, ela parecia estar gerando um filho do espírito santo.
Apesar de ver esses e outros casos, muitas coisas passaram “batido” por mim, a maior delas é a experiência da quebra do vínculo. Isso só se aprende mesmo quando se perde alguém próximo. De qualquer forma, acabei aprendendo também que dignidade na hora da morte é um negócio meio difícil de engolir, pois a morte é muito feia mesmo. Outra coisa que aprendi foi que trabalhar como psicóloga num hospital não era pra mim. Acabei generalizando e abandonei a psicologia inteiramente. Não havia mais atenuantes nessa área que pudessem me fazer persegui-la como ganha pão. Seria inviável presenciar tanto sofrimento físico, mental, psíquico, seja lá qual fosse, sem me sentir tão impotente e não sofrer com isso. Daí, como diz Marcelo Tas, quando não se sabe direito o que fazer quando é preciso escolher uma carreira, opta-se pelo jornalismo.
Dei essa volta toda pra dizer que minha educação para a morte só começou mesmo recentemente. Não houve filosofia, religião, enfermaria, filme de terror e as centenas de livros que li que ensinassem o que só se sabe perdendo. E dignidade, meu irmão, só na cabeça mesmo de quem fica pra aceitar “melhor” o fato, pois não é digno ter que fazer algo que não se deseja e mesmo que se deseje, também não parece digno ver a morte como a melhor saída.