Depois da bonança, a tempestade

Sei que o ditado na verdade é o oposto e tem como objetivo ser mais otimista do que estou sendo agora. Mas, a mudaça na ordem, na frase, tem como motivo meu fim de semana de extremos. Desculpem o post enorme, mas percebo que hoje ele nasce terapêutico…

Sexta-feira tive um dia como há muito não tenho. Planejei ficar em dia em relação aos eventos culturais da cidade. Portanto, comecei pelo documentário Morro da Conceição, de Cristina Grumbach. Muito fofo. Ainda tive a honra de assistir na primeira sessão do Artiplex com parte da comunidade mais que septuagenária, alguns, inclusive, entrevistados pela diretora. Do filme segui para o CCBB para ver a exposição Por ti América. Muito legal, apesar de ter sentido falta de falarem em Tihuanaco. Após a exposição, coisas não planejadas aconteceram a mancheias: primeiro encontrei os amigos Victor, Luis, Cassio e Cris e fui com eles assistir Plata Quemada, da mostra latina de filmes que foi até ontem. Ótimo o filme! [O que é aquele Leonardo Sbaraglia, o ator que faz El Nene, hein…]. Depois do filme caiu um pé d’água feroz. No foyer do CCBB, enquanto o céu caía sobre nossas cabeças, encontro Julião, amigo que mora no Espírito Santo e não via desde que estive em Vitória, em janeiro. Que abraço apertado gostoso! Estava no intervalo da peça que saiu de cartaz no domingo (Sodenheim…) com sua amiga Lourdinha. Muito bom ter surpresas assim. Após o feliz reencontro, fui com meus amigos ao salão de chá, esperar a água do Rio descer pelos ralos entupidos da cidade. Finalmente seguimos até a Lapa, pro Ernesto, comemorar o aniversário do Fá, outro amigo. No caminho, claro que fomos pegos por outro temporal e ficamos sob a marquise de um dos edifícios da Nilo Peçanha, esperando São Pedro nos favorecer. Acabamos pegando um táxi após o temporal e finalmente chegamos ao bar. Lá foi tudo maravilhoso. Lucio Sanfilippo cantava jongo, samba, ciranda e maxixe, acompanhado por seu grupo. Me acabei de dançar. Enfim, saí de casa às 11h e cheguei às 2h do dia seguinte. Ao menos me coloquei bem em dia com a agenda cultural da cidade.

Sábado foi outro dia como há muito não tenho. Da última vez que eu vi um sábado desses foi quando Chris, amiga contralto que cantava no Todotom, em 1998, foi atropelada ali perto da av. Maracanã e veio a falecer no dia seguinte. Bem, não foi morte, mas foi notícia bem ruim. Edmara me liga às 21:30h para contar que Márcia, amiga nossa muito querida, estava internada, em coma, devido a um AVC ocorrido na quinta passada. Não houve como evitar a comoção. Conheço ambas desde agosto de 1996, lembro exatamente o dia, 11 de agosto, uma semana antes de completar dezesseis anos. Conhecer as duas e o grupo todo numa reunião da juventude espírita significou muito pra minha formação — inclusive foi também neste grupo que conheci o Julião que reencontrei no sábado. Durante vários anos o grupo reunia a maioria de meus melhores amigos: era com eles que eu dividia minhas angústias adolescentes, meus planos pro futuro, minhas neuras, foi com eles que eu comemorei meu vestibular. Naquela época, Márcia fazia medicina. Tem o meu tipo físico e todos nos confundiam: chamavam-na de Mônica e a mim de Márcia. Muitos pensavam que éramos irmãs. Sempre quis ter uma e, confesso, a idéia me agradava muito. Era incrível quando nós duas ficávamos ao lado da minha mãe. Parecíamos realmente mãe e filhas. Quando fui pela primeira vez à Portugal, foi com minha mãe me levar ao aeroporto como se fosse uma irmã que ficava no Brasil para tomar conta de uma parte importante da família. Desejava felicidade aos “nossos” que eu finalmente conheceria quando lá chegasse com meu pai, português. Por lá fiquei durante três meses. Enquanto me divertia e vivia minha segunda adolescência, ela ligava com freqüência para saber como estava minha/nossa mãe. Nesse período deve ter falado mais com ela do que eu… Márcia tocava violão e cantava com sua voz muito afinada as canções espíritas que tanto nos emocionavam nas reuniões do grupo. Muita coisa mudou desde então: eu em 2000 assumi que tinha deixado de ser espírita; mudei de profissão umas quatro vezes; me casei. Edmara e Márcia também se casaram. Eu me separei, mas as duas estão lá, firmes e fortes. Edmara trabalha num Hotel e acho que um dia será dona de um. Márcia tornou-se médica pediatra e homeopata e sempre sonhei que ela fosse a médica de meus filhos. Infelizmente ainda não fui agraciada com a maternidade, mas gostaria que ainda assim ela se tornasse médica dos meus quando fosse possível. Liguei pra minha mãe sábado mesmo e chorei como se falasse de alguém de nossa família. Já tem alguns anos que Márcia vem lutando pela vida: fez duas cirurgias para tirar um grupo de células loucas e descontroladas que atingiram primeiro sua suprarenal e depois um de seus pulmões. Muito batalhadora, sempre esteva bem humorada e confiante. Mostrou-me sua primeira cicatriz, em formato de montanha. Pra mim, era o pódium onde recebia sua medalha de ouro por uma grande batalha vencida. Tempos depois conheceu seu marido e casou-se de noiva. Eu estava presente e soube bem o quanto é bom ver alguém querido realizar um grande sonho. Seu segundo maior sonho sempre foi ter filhos. Não os teve, mas recebeu filhos, netos, noras e genros, através do marido. Mas pouco importa, pois vem se dedicando a eles como se todos tivessem nascido de si. O otimismo é a marca de um legítimo sagitariano e ela não desapontava as previsões do zodíaco. Aliás, sempre adorou astrologia e foi uma das primeiras a apontar alguns aspectos no meu mapa e me despertar o interesse por esta arte milenar.

Bem, tudo isso foi pra dizer que domingo visitei-a no CTI. Abracei os seus com intesidade, me segurando para não lhes causar mais emoção. Uma fila de fãs estava a espera para vê-la. Antes de sair de casa, porém, coloquei um colar que ela me deu quando fiz 33 anos. Aquele ano, comemorei na Lapa e ela compareceu como boa amiga que sempre é. Ainda uso o colar agora e ontem, se ela tivesse me visto com seu presente, teria ressaltado sua beleza e me perguntaria quem o tinha me dado. Suas brincadeiras são sempre assim: singelas, porém marcantes.

Seu estado, me levou a redimensionar a vida de modo geral e a minha própria. Vejo que a intensidade com que encaramos o viver diário — desde o que há de mais monótono e simples, até nas escolhas que precisam ser feitas — deve ser essencial. Deve-se viver tudo com vontade, porque se quer, por achar que vale à pena, pois é assim que tudo torna-se muito importante. Isso varia segundo cada um, mas pra mim, isso significa fazer o que acredito, mais que tudo. Claro que relacionamentos entram na história também. Por isso, acabei tomando outra decisão no fim de domingo. A situação da minha irmã Márcia me fez perceber que uma parte de mim seguia deixando-se viver, esperando mudanças decorrentes do fluxo contínuo do dia-a-dia. Claro que as coisas não funcionam assim. Não comigo.

Espero que o somatório desatenção + tecnologia não me deixe distante de todos os que amo. E que minhas amizades não se restrinjam a respiradouros artificiais, vida em rede e voz por ip.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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