Aprendendo a jogar

O mundo é, realmente, como um sonho e seus tesouros são uma sedutora miragem! Como as aparentes distâncias num quadro, as coisas não têm realidade em si mesmas: são como uma névoa.
Siddharta Gautama

Sábado, logo após saber do coma de Márcia, recorri ao tarot. Confesso que não sou estudiosa, não sei jogar, sou até mesmo impaciente para fazê-lo. Contudo, em busca de uma solução imediata para minha angústia, supliquei por respostas. Baixei apenas duas. Não tenho método para jogar tarot e faço a interpretação guiada pelos sentimentos que tenho diante das imagens que vejo. Antes de tirar as duas pensei que a primeira iria me mostrar algo sobre a situação, enquanto a segunda me mostraria seu desfecho. A pergunta era óbvia: queria saber sobre a saúde de minha amiga.

Minhas intuições me diziam desde o início que poderia haver perda. Aliás, desde que Edmara me ligou há uns quatro anos falando da primeira cirurgia de Márcia, senti a possibilidade de perda e isso me deixou muito mal já naquela época. Naquela ocasião me senti culpada porque havia muito tempo que não nos falávamos e percebi que minha desatenção, já naquele momento, me trazia tristeza.

A carta que falava da situação da minha amiga era o imperador. Essa é uma carta muito positiva. Segundo os livros trata da realidade; do domínimo do espírito sobre a natureza; da organização e da ordem. Pode indicar que as coisas estão sendo arrumadas. O imperador representa o pai ou uma figura com muita autoridade. No entanto, interpretar o que é a realidade naquele momento da minha amiga não era muito simples: significava a realidade de seu estado atual? significava seu estado no contexto de uma realidade ampla, onde as coisas são sempre impermanentes, tal como se diz no budismo?

A segunda carta era a morte. Pra quem já estudou minimamente o tarot, sabe que esta carta não significa necessaria e objetivamente a morte. Pode significar a passagem de um estado a outro; de uma realidade a outra; o final de uma etapa e o início de outra; uma transição. Pode representar um fim importante que deve iniciar uma grande mudança. No entanto, em função da pergunta, a carta parecia ser muito objetiva: levava a crer que a morte aconteceria. Contudo, em função do conjunto das duas cartas, parecia haver um aspecto positivo ali expresso. Segundo minhas crenças, a morte não é ruim em si e como creio na sobrevivência do espírito e na reencarnação, faz parte do ciclo de renascimentos ao qual a maioria de nós ainda está vinculada. A morte, portanto, também representa um aspecto da realidade, de uma realidade em constante transformação.

Liguei para Mario, que sabe muito mais tarot que eu. Pedi para que jogasse, ele também. Fez um jogo baixando seis cartas. A carta que falava da situação era coincidentemente o imperador, e o desfecho, a torre. A torre me alertava para uma mudança súbita, explosiva e, provavelmente, dramática. No sentido da pergunta, podia conotar também a morte. Tentamos ver o lado positivo das cartas, pois o imperador indicava isso o tempo todo, já que a morte sempre nos afeta sempre de algum jeito.

Bem, as cartas realmente não enganaram e se eu as tivesse observado melhor em conjunto com minhas próprias idéias a respeito da morte, eu teria interpretado os acontecimentos como eles se deram na realidade.

Hoje, dia de finados, fui até o S. João Baptista despedir-me de minha amiga, ou melhor, de seu corpo. Reencontrei sua família, nossos amigos. Levei-lhe flores amarelas, pois ela gostava de amarelo. Muitos não quiseram ou não puderam ir. Muitos queriam permancer com a imagem de seu sorriso na memória. Não os julgo. Eu preferi permanecer com as duas imagens, ou melhor com todas as que tenho na memória e também em minha caixa de fotografias. Sua voz eu não tenho gravada, mas ainda a reconheceria perfeitamente. Porém, nada do que vi hoje, por mais doloroso que tenha sido, poderá fazer com que se apaguem as lembranças que tenho de Márcia. Ela faz parte da minha vida, assim como, infelizmente, sua perda, muito precoce pra mim. Mas temos que aprender a lidar com isso, faz parte da vida, de nossa realidade em processo, impermanente.

É assim que se aprende a jogar: perdendo.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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