O lado avesso do avesso não é necessariamente o lado direito

Marcas da ViolênciaHouve um tempo em que eu quis fazer crítica de cinema. Percebi logo que não tinha jeito pra coisa. Meus motivos para gostar ou não de um filme não são de quem entende de câmera, sequências etc e minhas refrências a outros filmes não seguem uma lógica cinematográfica padrão. Isso acontece com música também: às vezes sou capaz de estranhamente perceber algo de Bach e Hair em um grupo pop que ouço, mas não consigo explicar tão bem como percebi tais relações. É como se minha memória associativa tivesse vida própria, independentemente do que se passa na minha consciência.

De sábado para domingo acordei por volta das 3:30h da manhã. Talvez tenha sido o barulho da rua, talvez não. Me levantei, fui ao banheiro e voltei pra cama, crente que voltaria rapidamente ao mundo dos que ainda não foram de vez. Quem disse? Fiquei ao menos uma hora rolando na cama, pensando no filme que tinha visto no sábado à noite.

Marcas da violência justifica minha preferência por David Cronenberg como um dos maiores diretores vivos. Seus filmes são estranhos, incômodos, por vezes indigestos, mas muito originais segundo minha cultura cinéfila limitada. Seus personagens costumam ser originalmente complexos e sempre revelam algo de si mesmos que é o avesso daquilo que pareciam ser. Quando retornam ao ponto inicial da trama, ou seja, quando ao clímax sucede o final da narrativa, não pense que o retorno mostra algo já conhecido pelo espectador: não. Cronenberg nos mostra que o avesso do avesso nunca será o direito, pois não há ponto morto numa narrativa e muito menos marcha à ré.

Cronenberg se incomoda com o que é padrão. Não creio que seja para fazer tipo de “cineasta cabeça”. Compreendo seu incômodo como uma desconfiança com a aparência do equilíbrio, do tudo-em-ordem, do sob controle. Isto porque, por mais poesia, alma e boas intenções de que o mundo seja feito, este mesmo mundo é composto de homens e mulheres que têm corpo, desejos, mágoas, desastres, traumas etc. Por isso, as cenas de seus filmes revelam seus questionamentos e respostas — muito imaginativas, por sinal — a uma espécie de oqueestáportrásdistoaí? a todo instante. Se você acha que já aconteceu o pior até onde você viu no contexto de um de seus filmes, aguarde mais um pouco, pois não há limites para o pior: é o que ele parece querer dizer. E “continua”: Não seja hipócrita, meu querido, a vida dá margem a tudo isso e muito mais. Faça suas escolhas, ok? Não há como não fazê-las, sorry. Agora, ao fazê-las, não conclua precipitadamente sobre suas conseqüências, pois elas não são necessariamente previsíveis!

Viu? Eu disse que não tinha jeito pra fazer crítica de cinema: minhas leituras são assumidamente particulares..

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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