Educação para a morte e dignidade

Rachel Adler: I just want to die with a little dignity.
Dr. Gregory House: There’s no such thing! Our bodies break down, sometimes when we’re 90, sometimes before we’re even born, but it always happens and there’s never any dignity in it! I don’t care if you can walk, see, wipe your own ass… it’s always ugly, always! You can live with dignity; you can’t die with it!”
da série House

Essa semana lendo uma resenha sobre o último livro de Eduardo Giannett, O valor do amanhã, foi destacado o seguinte trecho:

Se existe uma educação para o sexo, por que não pensar em algo semelhante para a morte – uma educação visando aprimorar nossa capacidade de elaborar e assimilar esse destino que, afinal, é comum a todos?

Estou curiosa para ler o livro, confesso. Queria saber o que mais Giannetti argumenta a respeito. Ainda assim, a partir do trecho, tenho dúvidas de que uma educação para a morte poderia melhorar nossa capacidade de assimilar e elaborar o que não há como evitar, afinal, já que ele utiliza a educação sexual como parâmetro, também não creio que as últimas décadas de educação sexual que tivemos necessariamente aprimoraram nossa capacidade de elaborar e assimilar o sexo, pois muitos fazem sexo como se fossem morrer amanhã mesmo.

Há algo importante na experiência da morte que só é possível saber experienciando e não se aprende ouvindo, lendo, vendo filmes ou cuidando dos doentes. Digo isto porque vi muita coisa estranha quando trabalhei numa enfermaria de um hospital. As que mais me marcaram foram o caso de uma paciente minha que vi suar sangue e morreu de septicemia (infecção generalizada) praticamente na minha frente; outra vomitou fezes, pois seu câncer no aparelho digestivo já tinha saído de controle e uma terceira, que desenvolveu um câncer pouco raro chamado teratocarcinoma. Para os que sabem latim, terato quer dizer monstro, e trata-se de um câncer que atinge células reprodutoras masculinas ou femininas. Como era uma mulher, atingiu um óvulo que se reproduziu loucamente como se fosse um bebê. Sua barriga cresceu como se estivesse grávida. Quando ela morreu, o tumor foi retirado e sua aparência era a de um monstro, já que tinha desenvolvido unhas, cabelos e uma série de outras características humanas. O mais estranho é que a moça era virgem. Na enfermaria seu caso era considerado bizarro e, apesar de pertencer a uma família muito religiosa, ela parecia estar gerando um filho do espírito santo.

Apesar de ver esses e outros casos, muitas coisas passaram “batido” por mim, a maior delas é a experiência da quebra do vínculo. Isso só se aprende mesmo quando se perde alguém próximo. De qualquer forma, acabei aprendendo também que dignidade na hora da morte é um negócio meio difícil de engolir, pois a morte é muito feia mesmo. Outra coisa que aprendi foi que trabalhar como psicóloga num hospital não era pra mim. Acabei generalizando e abandonei a psicologia inteiramente. Não havia mais atenuantes nessa área que pudessem me fazer persegui-la como ganha pão. Seria inviável presenciar tanto sofrimento físico, mental, psíquico, seja lá qual fosse, sem me sentir tão impotente e não sofrer com isso. Daí, como diz Marcelo Tas, quando não se sabe direito o que fazer quando é preciso escolher uma carreira, opta-se pelo jornalismo.

Dei essa volta toda pra dizer que minha educação para a morte só começou mesmo recentemente. Não houve filosofia, religião, enfermaria, filme de terror e as centenas de livros que li que ensinassem o que só se sabe perdendo. E dignidade, meu irmão, só na cabeça mesmo de quem fica pra aceitar “melhor” o fato, pois não é digno ter que fazer algo que não se deseja e mesmo que se deseje, também não parece digno ver a morte como a melhor saída.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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