God is a DJ?

Auto-retrato de Almada Negreiros, 1943Estou aqui ao som do recém lançado Confessions On A Dance Floor, de Madonna. Sem comentários sobre o CD, ao menos por enquanto. Só sinalizo para a trilha desse post que nada tem a ver com seu assunto, tirando o fato de que meus pensamentos são mixturados, como se meu corpo, alma, memória e sensações estivessem numa pista. tum, tum, tum. Mixturados como só portugueses conseguem fazer, é bom lembrar.

Je suis desolée, lamenta Madonna na faixa 3 Sorry.

Metade de mim é made in EU, como um boot que eu comprei em Coimbra no século passado, ainda em escudo, pesado como a culpa e que durou quase dez anos — isso porque eu me cansei dele, já que sua sola estava intacta.

E, pois, como eu dizia? Bem, estava eu em Lisboa, finalmente com meu bilhete de identidade à mão, cidadã européia apesar do acento. A galera lá molengou, mas não teve jeito, pois era meu direito e ponto — que se lixem todos, pá. Depois da batalha indo ali e acolá, em bichas, tirando foto, sujando os dedos, sendo medida (putz eles colocam sua altura nos bilhetes de identidade, sério!), preciso voltar às bases, Coimbra. Antes, porém, permaneço ainda uma tarde na capital antes de pegar o autocarro. Não conhecia o Centro Cultural Calouste Gulbenkian, mas estava tesa e todo museu é pago. Oça, pensei, vou me arriscar assim mesmo. Olho o cartaz na entrada “estudantes não pagam”. Cheguei até a recepção e disse para a atendente que não me sorriu:

“Olha, vou ser sincera com você. Eu sou estudante, mas não estou com minha carteirinha. Não tenho dinheiro pra pagar a entrada, mas queria conhecer o Centro.”

“Ok, podes entrar”, sorriu.

Fixe“, pensei.

Dessa forma, graças à minha audácia e auto-confiança tipicamente manipura eu tive o imenso prazer de conhecer Almada Negreiros, um dos artistas mais doidos que já vi em Portugal. Bem, considero que chamar um português de doido é um elogio. Portugueses são estranhamente germânicos em seu modo de pensar e não digo isso só porque meu pai se chama Germano e meu bisavô também se chamava. Entretanto, como diria minha tia, a loucura em bom português acaba virando talento mesmo. Ok, ok, assim como eu, sua porção portuguesa era mixturada, pois nasceu em São Tomé e Príncipe. Assim mesmo o gajo pôs fogo no modernismo em Portugal e Espanha, e foi o grande porta-voz do movimento futurista português.

Almada era escritor e artista plástico. Difícil mixturar isso num único exemplar humano. Mas em se tratando de Almada, ele era mesmo um movimento artístico e não um ser humano único. Suas telas são impressionantes, são habitadas, tás a ver? Algumas são grandes e lá pude ver a famosa pintura de Pessoa, seu amigo, uma das mais famosas do poeta.

Já cá de volta ao Brasil, ao ler o Jornal de Letras, Artes e Idéias, do qual fui assinante talvez por um lustro, como diria Eça, me deparo com um conto-crônica-desatino, sei lá o que era aquilo. Li e reli talvez uma dezena de vezes aquilo. Li para amigos, namorado, meu pai, minha mãe, mas só eu me comovia com toda aquela correria de idéias. Até que a Aguilar lançou suas obras completas e eu hoje tenho tudo deste louco luso à mão. Segue abaixo um trecho que depois descobri ser de uma de suas grandes obras, Nome de Guerra, de 1938. Divirtam-se ao som de Isaac, faixa 10:

Das duas uma: ou as pessoas se fazem ao nome que lhes deram no baptismo, ou ele tem de seu o bastante para marcar a cada um. Será imprudente deduzir o nome próprio através de fisionomias ou dos caracteres; no entanto, uma vez conhecido o nome próprio de uma pessoa, ficamos logo convencidos de que este lhe assenta muito bem. Jules Renard tirou um esplêndido retrato da vaca em tamanho natural: «On l’appelle la vache et c’est le nom qui lui va le mieux.». Como vedes, este corpo-inteiro está extraordinariamente parecido, é vaca por todos os lados.Por sorte, a vaca não tem apelidos de família para lhe complicarem a existência. Mas, como é animal doméstico, vem a dar-lhe na mesma que tenha ou que não tenha apelidos. O ser animal doméstico faz com que fique dentro da circunscrição dos apelidos da família em casa de quem serve. A vaca é «Pomba», «Estrela», «Aurora» ou «Vitória» como uma pessoa podia ser apenas José, Maria, Luís ou Judite. É a domesticidade que leva a estas designações e para evitar o opróbrio da fria enumeração. São feitos da gentileza com facilidades para distinguir. Mas a verdade é que o facto de alguém ser Joana ou Manuel já é mais do que ser apenas homem ou mulher. Ser homem ou mulher é apenas a natureza; chamar-se João ou Manuela já é a natureza mais a vida inteira: é o problema. E se o João é Sousa e a Manuela é Pereira, então, à natureza e à vida junte-se-lhes ainda por cima a existência e complicou-se o problema.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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