Minha saudade tem nacionalidade

“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da ruaA fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora.
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.”
Fernando Pessoa

Fotografia tirada por Lu�s Alberto em dezembro de 1993, no castelo de PenedonoNada melhor que buscar em Portugal, mais uma vez, as raízes do que sinto hoje. Meu coração se parte e a saudade dói como a dor dos portugueses que sonham por uma terra que já não se pode mais conquistar. A saudade hoje tem nacionalidade. Também tem trilha sonora, dos Madredeus. Canção: Matinal, mas pode deixar tocar todas as faixas do Existir. Carlos Paredes também deve ser lembrado e os Trovante merecem ser tocados nesta solenidade.

Olho para o Tejo, iludida com a aparência de um rio que parece mar. Vejo a ponte que me leva para o sul me apontando para o calor e para as paisagens alegres do Alentejo, mas sigo para o norte, Ribatejo, em direção à Serra do Caramulo. Passo por Viseu, mas lá não fico, lá não quero permanecer.

Sigo voando por sobre as montanhas e, apesar de não estar de carro, relembro o caminho da estrada que me leva a Penedono, onde há um castelo solitário, numa terra pouco habitada. Ali, por sobre o castelo, como uma gaivota distante de seu habitat, decido que preciso parar. Pouso e vou até o bar da esquina, que é onde eles guardam as chaves do castelo.

Abro a porta do castelo e corro até os pavimentos mais altos desta construção medieval, que apesar de antiga está em perfeito estado. Paro diante de uma escada, encosto-me numa das milhares de pedras que ali seguram aquela austera, porém belíssima construção. Aguardo que meu primo se coloque diante de mim para tirar esta foto novamente.

Ninguém nunca conseguiu tirar de mim uma imagem dessas. Seu olho me revelou de uma forma sensível, desarmada, relaxada e bonita, como nunca vi, como talvez nem eu soubesse que eu podia ser. Esta foto não me mostra a imagem de Luís, mas o modo como ele me enxerga. Meu jeito estabanado de dizer as coisas jamais parece ter lhe atingido, pois ele parecia, naquele momento, que me via além da mera forma, aparência ou das minhas defesas.

No dia do seu casamento, quando eu já estava arrumada, penteada e pintada para ser sua madrinha, perguntei-lhe: “que tal? como estou?”. E ele não pensou duas vezes ao me responder: “oh, pá, tás como és: belíssima”. Como posso deixar de sê-lo depois que ele me diz algo assim? Parte do que sou, seja por fora e, hoje, muito mais por dentro, é fruto da feliz e agradável sensação de alívio por ter conhecido nesta vida uma pessoa como Luís: a pessoa mais pronta que já encontrei. Saber que além de tê-lo conhecido, também pude participar de forma especial de momentos que para ele foram tão importantes e saber que parte do que ele carregava nos seus genes também está presente nos meus, me deixa orgulhosa.

A nacionalidade da minha saudade é mixturada, também como eu: angolana e portuguesa.

A nacionalidade do meu sentimento por Luís não existe, pois a língua que falávamos não era desse mundo.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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