Bairrismo

Já me disseram que sou bairrista. Nunca me vi assim, mas hoje tenho que admiti-lo.

Desde o fim de semana que preparo um trabalho para um congresso. Eu já estava fora do prazo e essa hitória me deixou tensa e angustiada. Eu não poderia perder a oportunidade já que é um congressso internacional. Terminei-o hoje, precisamente às 13:53h, após enviá-lo por email. Modéstia à parte — é, acho que não sou muito modesta mesmo — o trabalho ficou muito bem escrito. Eu tinha um limite máximo de vinte páginas para escrever e por muito pouco não utilizei a última linha da vigésima lauda. O título é Análise do campo jornalístico a partir do episódio Época/Carta Capital de agosto de 2005. Não tem a ver diretamente com minha tese, mas eu não poderia deixar de escrevê-lo, pois surgiu de um tema desenvolvido em sala de aula com meus alunos, tema este que me motivou bastante.

Ok, ok, explico porque admito ser bairrista.

Às 13:53h, após meu dever cumprido, percebo meu estômago reclamando. Na geladeira, havia muito pouco além de água e mesmo que tivesse mais que isso eu não me mexeria para fazer nada. Tomei banho, me vesti e pensei na realidade da vida prática que me exigia empenho: pagar o aluguel; comprar zíperes para as almofadas que preciso fazer; comprar cartucho para a impressora; imprimir meu trabalho; fazer compras, enfim, ser mortal como qualquer mortal.

Antes de tudo, porém, deveria alimentar o corpo que às 14h e uns quebrados tinha apenas um batido — como dizem os portugueses — de manga com leite de soja, concerta e água. [Pronto, descobriram porque eu emagreci…].

Decidi ir ao bar da esquina — pra quem conhece minha casa sabe que a minha esquina fica a dois edifícios de distância. Sentei-me e pedi bife com batatas fritas, arroz, feijão, farofa e salada como cortesia da casa. Com o guaraná natural, tudo isso me custou 6 reais e 50 centavos. Comida gostosa, hein. O feijão era 10.

Após a barriga cheia e a consciência vazia, me dei conta de que fazer comida em casa, só pra mim, quando eu podia comer bem, sem ter que lavar a louça e gastando pouco, foi a minha maior perda de tempo dos últimos 4 anos, desde que me mudei para esse apartamento. Neste momento, também decidi que seria bairrista assumida e a consciência fugidia, de culpa pela falta de atenção com meu bairro, resolveu dar o ar de sua graça.

Durante meu almoço conversei com minha síndica. Ela soube que tenho gatos, que me separei em 2004, que sou professora, que tinha acabado de escrever um trabalho para um congresso, que minhas férias estavam acabando. Depois me despedi de todos no bar e após pagar o aluguel, pensei no caminho que faria até a rua Buenos Aires, ali perto, ainda no Centro.

Ao fazer meu caminho, lembrei-me da história de meu bairro. Imaginei-me caminhando sobre os passos de Capitu e Bentinho, desbotados pelo asfalto da modernidade, anunciada por Pereira Passos no início do século XX. Reparei no casario tombado e nas cores berrantes de algumas fachadas reformadas. O cheiro das ruas delatava a pobreza de meu bairro mas também o odor de sua história, que se confunde com a história do Rio e do Brasil. Quem disse que a história é necessariamente cheirosa? (Paris cheira a perfume e sua arquitetura é de uma harmonia que assusta. Amo Paris, mas ambos, seu cheiro e seus edifícios, maquiam muita coisa podre da história da França).

Há um valor humano, arquitetônico, histórico, social e energético em meu bairro. Alguns paralelepípedos esquecidos revelam, entre suas linhas mal unidas, uma percepção do passado que ainda não se apagou, apesar de toda a diversão que meu bairro transpira.

Há becos, atalhos, sujeiras, travecos, saltos agulha, vestidos tomara-que-caia, chapéus, esgotos abertos, pernas e dores de fora, pedintes, maltrapilhos, executivas, senhoras muito idosas que andam lentamente nas calçadas estreitas, gatos abandonados, vidas em desalinho, pivetes, pessoas tortas, putas tristes e baratas (ou tristes por serem tão baratas?), lojas que vendem bom e barato, imigrantes desesperançosos e outros que ficaram ricos; há sinais de Machado, Lima Barreto e João do Rio; há morros destruídos e outros ainda de pé; há o mar sob o aterro; há meu pai e minha mãe, meus amigos, meu passado, minha história, minha infância, meu presente e, provavelmente, meu futuro por muito tempo.

Aqui no meu bairro eu sou. Sou porque fui e porque ainda serei no meu bairro.

Enfim, chego à rua da Conceição e logo estarei ali na Buenos Aires a comprar os zíperes. Durante todo o caminho divago sobre esse texto que estou acabando de escrever, como se minha consciência culpada o ditasse. Reparo em tudo o que há no meu caminho, mas reparo como numa estranha letargia de consciência desperta, pois gerava o texto que me redimiria do descaso.

Rube e Bráulio, peço-vos perdão. Não havia mesmo como fazer-vos uma história digna, sem ao menos pensar no meu, nosso bairro, em toda sua dignidade e esplendor merecidos.

O bairrismo é uma seita, mas também um talismã que nos defende das tragédias cotidianas. A crença neste amuleto me comove e me inspira. Não me resta mais o que dizer.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

4 Responses to Bairrismo

  1. Hernan diz:

    Usted es escritora profesional, no es cierto?

    En dónde más puedo encontrar sus artículos?

  2. Reynaldo diz:

    Showwwwwwwwwwwwwwwwww
    Faço parte disso, desse movimento intrincado de história e vida cotidiana. Sou bairrista!
    Beios
    rey

  3. Anonymous diz:

    Realmente vc poderia fazer algo mais com seus textos, além de publicá-los em seu blogger.
    Todos são maravilhosos , alguns um pouco pretenciosos,porém, muito bons.
    BJS Grande
    Margs

  4. Pingback: Releituras « Nina e Eu 2.0 [de Coimbra]

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