Conde

Foi muito chão até chegarmos à entrada da cidade. Tanto que diante do sinal de Benvindo a Conde, achei que poderia encontrar algo como Você ainda está na Bahia. Conde fica perto da divisa com Sergipe. Estávamos muito perto de Mangue Seco, de Tieta do Agreste, Canudos. Muito distantes de Antonio Conselheiro, Jorge Amado e do resto do mundo.

Dois homens a cavalo denunciavam que o local, apesar de à beira-mar, estava um pouco parado no tempo. Ótimo, pois a idéia era essa mesmo, postergar o final da viagem ao máximo.

O tempo, inclusive, estava ao nosso favor. Tínhamos saído bem cedo e já passáramos em Arembepe para ver uma das últimas comunidades ripongas de que se tinha conhecimento e na Praia do Forte para conhecer o “forte”. No forte, lembrei-me do quanto eu teria adorado fazer arqueologia… Passei a maior parte do meu ensino médio ligada nessa história, mas meu pai acabou me convencendo de que não seria uma boa idéia, já que a área era muito pouco valorizada no Brasil. Alías, ainda é, mas hoje as coisas já estão melhores que há vinte anos atrás. Como adoro revirar o passado, acabei entrando para a psicologia e apesar de a área também não ser das mais valorizadas, assim mesmo fui até o fim. Mas esta é outra história…

Paramos numa encruzilhada, já na vila de Conde e perguntamos para onde eram as praias.

“Fica no sítio. Vocês poodem dar uma carona até lá?”

A dona cobrou a informação na hora. Sem problemas, nada como uma boa conversa com estranhos na Bahia. Ela entrou com uma menina, Sara. Linda demais. Negra, olhos enormes e muito vivos, mas tímida, muito tímida. Pensei que era sua neta e minha boca mais uma vez não me limitava a pensar.

“Ter filho depois dos quarenta é assim mesmo.”

A dona parecia ter bem mais de quarenta. Sua pele era bastante castigada pelo sol, alguns dentes lhe faltavam na boca e sua voz tinha um timbre meio senil. No caminho tivemos que parar num pedágio de estudantes.

“Nós estamos nos formando no colégio, vocês podem colaborar para nossa formatura?”

Tirei dois reais da bolsa e gritei para os jovens para que eles não parasssem os estudos após a formatura. Todos riram, inclusive eu. Meu ato desengonçado e desesperado tentava mais uma vez conter o tempo da falta de oportunidades, preço que a maior parte das pessoas de Conde teria que pagar, mesmo acabando parte dos estudos.

Eu continuava olhando para Sara, esperando apenas um olhar, pois seu sorriso seria meio difícil. Enquanto isso, sua avó, ou melhor, sua mãe, nos contava que era de Salvador. Não perguntamos o que ela fazia naquela cidade, nem o porquê de ir para a capital e voltar sempre para Conde. Eu, com minha mentalidade sulista e de classe média, imaginei que ela trabalhava em algum sítio ali perto. Dessa vez, contudo, limitei-me a pensar.

Após o pedágio, o caminho se desenhou a nossa frente como um dos mais bonitos já visto: coqueiros pouco resistentes à força do vento, gado magro e livre, jumentos correndo atrás de suas fêmeas. Atmosfera de pouca resistência à natureza, mas muito resistente ao tempo. Deixamos Sara e sua mãe-vó no lugar que pediram e seguimos até a praia, marzão aberto e agressivo, pouco convidativo ao banho. O vento era tamanho que não nos deixava muito ansiosos por este fato: as coisas pareciam estar em seus lugares. Será?

Antes de sair do carro Sara me olhou nos olhos e sorriu. Mandei-lhe um beijo.

“Tenha juízo…”

Nem eu mesma entendi o que eu queria lhe dizer com esta frase, afinal, isto não significa nada para uma menina de apenas quatro anos. Eu e minha mania de querer salvar o mundo… Uma estranha consicência sebastianista, sabe-se lá o porquê…

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

2 Responses to Conde

  1. João Diogenes diz:

    Mônica

    Adorei sua narrativa sobre o Conde, principalmente, porque, encvontrava-me (apesar de ser um personagem oculto em sua escrita) embebecido com os contornos da paisagem, com mar, que se apresentava, ao mesmo tempo, furioso e singelo; com olhar distante de Sara e com sua companhia…
    Em meio às distâncias, às risadas, à chuva que molhou nosso horizonte, entramos e saimos do Conde, trazendo conosco as lembranças de um dia especial…
    Beijos
    João Diogenes

  2. Gustavo diz:

    Me comoveu especialmente em seu relato o fato de que muitos não têm oportunidade na vida. Isso é algo que verdadeiramente destrói perspectivas e agudiza insatisfações. Estudar pra que? Se perguntam alguns. E eu digo, estudar, para pelo menos perguntar pra que estudar? e saber ter a resposta….

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