Balancete e memória

Há exatamente um ano eu soube que Márcia estava no CTI. No dia seguinte eu descobria com o plantonista que faltava pouco para que se desse sua morte cerebral. Sobre isto eu escrevi neste blog.

Depois desse acontecimento, muita coisa mudou para mim. Passei a ver a vida de uma forma mais prática, do tipo: se bem, bom, se não, por que me estressar tanto? Também passei a considerar o que digo tomando como parâmetro aquilo que sinto: se gosto, se quero, se não gosto, se sinto, se não sinto, então digo algo de acordo, pois é o que vale. Com isso, pequenas atitudes diárias passaram a ganhar tamanha dimensão existencial, de bem-estar, de satisfação, ao ponto de muitas vezes eu me sentir muito feliz por ser quem sou e viver como vivo apenas porque estou tomando meu banho diário.

Eu não sigo nenhuma religião, não repito mantras, nem tenho rezas prontas, apesar de acender um incenso de vez em quando, mas faz um ano que minha vida assumiu uma dimensão “religiosa”, no sentido de uma religação profunda com o que há, com o presente.

Ontem me peguei com um sentimento de profunda gratidão com o passado. Não nos damos conta do valor do tempo, do valor do tempo que passou e de como este passado é capaz de transformar o presente. Hoje, quando fico em dúvida se vou ou não fazer algo, penso: se hoje fosse meu último dia de vida, valeria a pena fazer isso? De que modo isto pode realmente ser importante como evento no dia de hoje? É assim que decido e tenho sido muito feliz em minhas escolhas. Foi isso o que expressei em meu post de ontem.

Há uma ditado no Brasil que diz que a vida valeu a pena se tivemos um filho, escrevemos um livro e plantamos uma árvore. Sinceramente, hoje percebo as falhas de princípio dessa oração. Márcia não escreveu nenhum livro, apesar de ter criado e ilustrado estórias infantis. Não teve um filho, apesar de ter dedicado sua vida às crianças, como médica e como pessoa. E, pelo que sei, acho que também não plantou árvores, apesar de ser “sócia” do Jardim Botânico, pois adorava a natureza e estava sempre lá passeando. Portanto, mais que plantar, ter um filho ou escrever, é preciso respeitar a vida, no limite que a vida nos impõe, pois nós não somos senhores e muito menos disciplinadores do viver.

Sem tristeza, mas com saudade, dedico à minha amiga “Baião de quatro toques”, do José Miguel Wisnik, uma música que ela, certamente, gostaria de ouvir.
A música está ao lado e a letra está aqui.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

2 Responses to Balancete e memória

  1. muqui diz:

    Que engraçado!! Ainda ontem estava pensando na sabedoria dos antigos hebreus. Deixaram-nos a bíblia, com ensinamentos magnificos em cada uma de suas palavras, mas que ignoramos. Inspiradas por Deus, atravessaram os séculos, com uma conteporaneidade inexplicável. Tudo o que nos envolve, que nos diz respeito, de alguma forma está escrito lá. Nosso universo particular é misteriosamente invadido, cuidado e orientado por elas. Em um de seus versículos, direcionado exclusivamente aos jovens, é dito (não exatamente com essas palavras, mas sendo este o sentido): “filho, cuida da tua mocidade para que dela vc colha bons frutos”. Creio, plenamente, que, num dado instante de nossa vida, alcançamos um grau de sabedoria tão “divino”, que conseguimos colher nossos bons frutos. Eis a influência do divino, do glorioso, que se traduz numa única expressão: fé.
    bj grande

  2. Reynaldo diz:

    O que falar das suas palavras? Usar palavras pra falar delas? Impossível! Não há palavras que caibam tamanha emoção sobre a reflexão do efêmro da vida. Concordo tanto com você. Sou tão seu cúmplice mesmo em silêncio. Não há explicação para isso. Você me sabe muito e fico muito tranquilo em tê-la aqui, dentro do meu coração. Eu te sei muito também!
    Te amo muito,amiga!
    Beijos
    Rey

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