João Cabral de Melo Neto

Quando terminei minha dissertação de mestrado, em 1999 , achei que convinha colocar uma poesia no início do primeiro capítulo. A poesia escolhida foi Num monumento à aspirina, de João Cabral de Melo Neto. Ontem, antes de dormir, mais uma vez escolhi João Cabral para dizer em versos parte da angústia do querer dizer algo que possa fazer alguma diferença. Sei que o mundo não posso mudar. Mas vontade realmente não me falta.

Rios sem Discurso
A Gabino Alejandro Carriedo

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

*

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

Portanto, que meu discurso-rio, pleno de outros discursos, com toda sua abundância, siga seu curso preciso e desagüe em algum lugar onde a seca possa combater.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

One Response to João Cabral de Melo Neto

  1. Anonymous diz:

    Eu realmente sou uma “lesada”… Queimei milhões de neurônios pra tentar entender qual a saga do rio e não cheguei a conclusão alguma…
    – Podem chamar-me de fraca, sei que o sou… e pq não tola, visto que vivo em pleno vôo… Ah poesia, nada sou … temo por minha memória da qual nada restou… depois da leitura inglória do texto que JCMN criou…
    (coitados dos meus neurônios falecido… tô podendo não… trabalha só com eventos pra ver o quê acontece…)
    bj

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