"Deus não manca"

Há uma série de que gosto imensamente: House MD. É com Hugh Laurie, um ator excelente que conheci na metade da década de 90. Ele fazia um programa inglês de humor que passava no Eurochannel chamado “A bit of Fry and Laurie”. Era um trocadilho óbvio com O Gordo e o Magro: Stephen Fry era “O Gordo” e Hugh Laurie “O Magro”. Foi a partir dessa época que passei a acompanhar o que eles faziam, exceto por Stuart Little, pois acho que não combina muito com meu gosto cinematográfico. Mas, apesar da tendência de Laurie para as gracinhas, não se iludam: House M.D. é uma das séries mais dramáticas de que tenho conhecimento.

Gregory House é um médico que tem como especialidade fazer diagnósticos. Quanto mais difícil o diagnóstico, melhor para ele. Por vezes, ele não parece um sujeito muito humano, pois além de não gostar de ter contato com os pacientes, toma atitudes um bocado anti-éticas, que parecem tortura. É claro que não se deve considerar que o modo como ele chega aos diagnósticos seja verossímil do ponto de vista médico, afinal trata-se de uma série de TV que precisa de certo impacto para dar ao personagem e ao show certo ar de magia.

House é movido por desafios que, apesar de gerarem divertidos jogos de razão, mostram-se como insights nem sempre muito racionais de um sujeito que consegue observar o ser humano de uma forma pouco convencional. Ele dá atenção a detalhes que passam despercebidos para os que tem um olhar adestrado.

No entanto, apesar de ser um “diagnosticador” maravilhoso, House tem características morais — defeitos, diriam alguns — e um problema físico que tornam a convivência com ele algo da ordem do quase impossível. Ele manca por sentir muitas dores na perna, pois teve uma trombose no membro que o levou a ter que tirar parte do músculo da coxa. O problema físico acaba por exarcebar suas características e, talvez, vice-versa.

Sua arrogância é regularmente inacreditável e sua auto-confiança parecia ser irredutível… até semana retrasada quando acertou um diagnóstico completamente improvável, sobre o qual não toma conhecimento. Por orientação de seu melhor amigo, um médico oncologista que também estudou literatura com Robin Williams em “Sociedade dos poetas mortos”, a diretora do hospital esconde dele seu ótimo resultado. O motivo? Tentar torná-lo um pouco mais humilde.

É claro que a mentira também teve trombose na perna e anda com dificuldade. Ao descobrir a farsa, House vai até seu amigo tirar a limpo. O ex-aluno de Mrs. Doubtfire tenta justificar a farsa em seu receio de que ele se achasse um “Deus” ao acertar um diagnóstico sem base racional aceitável: parecia uma sorte. A isto, House responde que “Deus não manca”, encerrando mais um episódio genial.

Por que isso tudo?

Para dizer que “simples” detalhes, aparentemente irrelevantes para quem enxerga uma pessoa à distância como se ela fosse “o máximo”, são suficientes para que essa mesma pessoa se sinta um côcô bem fedorento.

Admiramos alguém a partir do julgamento que fazemos a respeito do que o outro nos parece ser e não reparamos nos “buracos” que fazem parte de sua existência. Todos são vulneráveis porque se sentem vulneráveis de alguma forma. Portanto, estão prenhes de infelicidade, a despeito de sua eficácia mundana, tão desejada, quiçá invejada.

Que cada um possa se perceber segundo o lugar que ocupa e assim ser capaz de entender que fragilidade, depressão e todo tipo de mal-estar existencial não são marcas de quem parece looser. Eu não duvido que o winner possa ser um perdedor que conseguiu iludir a todos do contrário.

Música tema de House M.D., Teardrop, do Massive Attack

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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