Scoop

Domingo passado assisti “Scoop”, último filme de Woody Allen. Pra variar ele brinca com a questão da sorte e com o amoral, tal como no filme anterior. A diferença é que o faz a partir dos jornalistas.

Abre parênteses. Sou fã do Woody Allen desde os nove, dez anos. Ao comentar isto com uma amiga que foi assistir o filme comigo percebi o quanto de estranheza uma frase como essa provoca. Até porque nessa mesma época eu já tinha lido e relido “O Menino Maluquinho” umas vinte ou trinta vezes. Como uma criança poderia gostar de “Noivo neurótico, noiva nervosa” ou de “O Dorminhoco”, no qual, de seu enorme nariz, Allen é reconstituído 200 anos depois de sua morte e uma das coisas que encontra é uma máquina de sexo? A questão é que por mais infantil que eu fosse, me lembro nitidamente dessas cenas! Fecha parênteses.

Para Allen jornalistas são abutres, que fazem tudo por um grande furo ou big scoop, até mesmo tapear a própria morte. Mas a coisa não é tão simples assim. Dizer num filme que jornalistas são abutres parecia lugar-comum. Por isso, mais do que dizer sobre a “abutridade” dos jornalistas, Allen resolve responder a pergunta: como se dá o processo de forja de um jornalista-abutre? Esse é o papel de Scarlett Johansson.

Scarlet está linda e loura, porém, de óculos e naïve, às vezes quase estúpida. Estudante de jornalismo, não sabe exatamente o que fazer para tornar-se uma grande jornalista. Ao realizar uma entrevista com um figurão do cinema, faz sexo com ele e esquece da reportagem. Ao ser questionada por uma amiga se ao menos tinha sido bom, ela responde: “Não sei, eu estava muito bêbada”.

A moça é guiada pela emoção, então, como se tornar jornalista? É por isso que Allen parece se perguntar o tempo todo: o que fazer para que este coração seja corrompido? O próprio persongem do diretor tenta fazê-lo a todo instante, mas em vão. Apesar de ser um prestidigitador dos mais cínicos que pode haver, é justo com ele que Scarlet conta para conseguir seu grande furo. É verdade que seu iludido coração invariavelmente sempre erra, mas a aprendiz de jornalista tem muita ambição.

Ao final, que eu não vou contar, fica claro que ambição+desilusões amorosas+sorte são os ingredientes principais para a elaboração de um canalha no universo das notícias. Talvez, até, um canalha de modo geral. Talvez Allen esteja tentando justificar a existência de tantos canalhas no mundo ao dizer que a “busca da verdade” pode vir à reboque de uma grande decepção com a vida.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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