O escritor certo

A mulher certa, de Sándor MáraiTem exatamente um mês que não escrevo um post. Estou numa fase em que as idéias circulam rapidamente e muito pouco se fixam ao ponto de eu me sentar e conseguir escrever algo.

Em geral, quando tenho idéias é ao ler “A mulher certa”, do escritor húngaro Sándor Márai [traduzido aqui diretamente do húngaro!]. Há tempos que não lia algo tão bom. É um romance contado a partir de três pontos de vista, três monólogos. Márai era um sujeito que parecia ter uma enorme experiência de vida associada a uma incrível capacidade de observação das vicissitudes humanas. Mas, ao mesmo tempo, parece nos revelar também que nosso hábito de refletir sobre nós mesmos, essa auto-fagocitose mental insistente ou masturbação mental tão comum para muitos de nós, é um vício extremamente burguês, no sentido mais fundamental ou original da palavra “burguês”.

Apesar de tratar-se de um triângulo amoroso interessantíssimo, há momentos de ironia muito agradáveis, tal quando o homem da estória fala de sua amizade com seu melhor amigo escritor:

Inventamos muitos jogos. Havia o do senhor Kovács; esse vou contar-to, para perceberes que reações alimentávamos. Devia ser jogado no meio da sociedade, entre os senhores e as senhoras Kovács, em que atacávamos imprevistamente, sem preâmbulos, para apanhar os outros de surpresa. O que diz o senhor Kovács a outro senhor Kovács quando a conversa incide sobre a crise governamental, ou sobre o Danúbio que transborda e inunda várias aldeias, ou sobre o divórcio da célebre atriz, ou sobre o conhecido público apanhado a meter a mão na massa, ou sobre o grande paladino da moral suicidando-se num bordel?… Aí, o senhor Kovács faz hum. E diz: “Pois é assim, meu caro.” E sai-se, então, com uma enormidade, isto, por exemplo: “Uma das características da água é ser úmida.” Ou: “Uma das propriedades do pé humano é ficar molhado, quando imerso na água.” Ou diz: “Pois é assim, ou assado, meu caro.” Desde que o mundo é mundo, é assim que falam as senhoras e senhores Kovács. E se o comboio parte, dizem: “Partiu.”

Meanwhile, é preciso produzir: planejar minha pesquisa, fazer um paper para um congresso, outro para uma revista, revisar um terceiro que será publicado, entrar em contato com instituições etc. Ai, ai, só consigo ler meu adorável Márai à noite, antes de dormir…

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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