Cassandra

Ontem assisti Cassandra’s Dream, filme de 2007 de Woody Allen. Afinal, Woody Allen está com uma tendência cada vez mais para o transcendente. Será a idade avançada? A proximidade cada vez maior da morte? Não é por acaso que esta tendência se reflita na livre adaptação de tragédias gregas. Isto acaba por não ser assim tão divertido, sobretudo quando o diretor não está presente em suas películas, caso de Cassandra.

Cassandra é um personagem da mitologia grega. Filha dos reis de Tróia, tem um irmão gêmeo. Ainda crianças, os dois vão brincar no Templo de Apolo e adormecem. São encontrados depois por sua ama, que vê duas serpentes a passarem as línguas em suas orelhas. Cassandra e o irmão passam a ter a capacidade de ouvir as vozes dos deuses. Quando adulta, Cassandra vira profetiza, mas, ao se recusar a dormir com Apolo, ele lhe amaldiçoa para que ninguém mais acredite em suas previsões. Imaginemos, então, sua angústia ao saber do triste fim de Tróia e não poder fazer nada…

No filme, porém, Allen nos transforma a todos em Cassandra. Desde o início a extrema cumplicidade dos irmãos Ian e Terry nos leva a crer que aquilo não vai acabar nada bem e que o barco que compram juntos, ao qual dão o nome de Cassandra’s Dream, não pode ser sinal de boa sorte, como pensa Terry, e sim, seu extremo oposto. Talvez por isto, a angústia era uma constante em mim durante todo o filme, até seu derradeiro final.

No entanto, há muitas coisas divertidas também. É interessante ver como Woody Allen consegue diluir-se em dois personagens, ou seja, os dois irmãos. Terry é viciado em aspirinas e tranquilizantes e tem um otimismo quase naïf em relação ao próprio destino. Já Ian é completamente cego quanto a indiferença inicial da mulher por quem se apaixona e parece não ver que ela lhe trai, é ambiciosa e faria qualquer coisa para tornar-se uma atriz famosa, qualquer coisa mesmo. Terry não tem o pé no chão e Ian acha que não o tem noutro lugar. Terry é neurótico, paranóico, nervoso. Ian é mais frio e calculista, mas o faz a partir de suas técnicas constantes de auto-engano. No entanto, ambos vivem iludidos pelas vagas de sorte que dizem passar em suas vidas.

Apesar de diferente dos outros filmes e bem contido quanto ao humor, considero este Allen muito bom de ver e com muito mais conteúdo que a grande maioria dos filmes que estão por aí. Para mim, isto sempre vale a pena.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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