Mar me quer

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.
Mia Couto

No último sábado, Bia K chegou do Brasil logo de manhã e foi direto para minha casa, no Porto. Rapidamente saímos para bater perna na cidade, o que fizemos com bastante afinco. Na rua de Santa Catarina paramos no Café Majestic, onde eu comi a tosta de queijo mais cara da minha vida. Depois corremos por todas as lojas e ruas quando a fome nos apanhou e partimos em direção à Ribeira para almoçar. Tudo muito típico: ela, sardinhas assadas com batatas e pimentos, e eu, alheira com salada e batatas. Atravessamos a ponte Dom Luís para, em Gaia, visitar uma das dezenas de caves de vinho do Porto. Escolhemos a cave Cálem. Em seguida fomos até a Livraria Lello e eis que lá, justamente no res-do-chão, encontro um belíssimo livro de capa dura de Mia Couto, Mar me quer. Mais uma vez acabei comprando um livro por causa do primeiro parágrafo. Está se tornando cada vez mais comum isto… O parágrafo é o que está aí em cima, na epígrafe deste post. O livro já está lido e só tenho a dizer que é simplesmente maravilhoso.

– Vê as estrelas, Zeca? Sabe o que elas dizem?

– Não mãe.

– Sabe, filho, a noite é uma carta que Deus escreve em letrinhas miuditas. Quando voltar da cidade você me há-de ler esta carta?

– Sim, mãe.

O estilo do moçambicano Mia Couto lembra o do nosso Guimarães Rosa no que se refere ao uso de neologismos e ao regionalismo. Contudo seu texto pode ser considerado uma espécie de prosa poética de altíssima qualidade que há muito tempo eu esperava ler. Sim, eu sempre desejei ler algo como eu li na terça à noite, mas nunca tinha encontrado.

Neste livro – pois ainda não sei se isto é uma constante em seus textos, mas hei de sabê-lo -, Mia Couto utiliza as profundas relações de um pescador com o mar para falar de amor e morte, como se ambos fossem duas faces de uma mesma moeda. O livro veio bem a condizer, pois há tempos penso na morte como um evento que carrega muitas mensagens para além dela mesma e que, talvez, justamente estas mensagens sejam mais importantes que a própria morte em determinados contextos.

O mar tem um defeito: nunca seca. Quase prefiro o pequenito lago da minha aldeia que é muito secável e a gente sente por ele o mesmo que por criatura vivente, sempre em risco de terminar.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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