Homem-flor

Acabo de ver um documentário da RTP1 sobre José Saramago. Não foi o melhor documentário que vi, é verdade, mas foi bem emocionante e bastante surpreendente. Mostrou-se um Saramago que eu ainda não tinha visto: homem que é pura emoção, que faz jus ao signo escorpião e à encantadora falta de sobriedade de lhe terem atribuído o nome de uma flor por engano. Saramago foi o sobrenome que um escrevente bêbado, num cartório de uma terrinha típica de Portugal, lhe pôs por engano, no lugar de José de Sousa, mesmo nome do seu pai.

[Em Portugal, eram muito comuns histórias de registros civis equivocados devido a escreventes ou parentes bêbados. A meu pai, por exemplo, falta-lhe o sobrenome da mãe. À minha tia, faltou-lhe qualquer sobrenome. Até casar, a pobre chamava-se apenas Maria da Conceição. E por aí vai…]

Há muitos por aqui que não compreendem o valor de sua literatura ou mesmo de sua pessoa. Sua mulher, Pilar, em breve fala, mas com muita lucidez, explica que Saramago representa Portugal e o português como nenhuma outra figura atualmente seria capaz de representar. Ele é o filho e o neto de camponeses alentejanos analfabetos que, embora tenha tido pouquíssimo estudo, conseguiu, autodidata que foi, descobrir-se no mundo literário sem nunca abandonar suas raízes de trabalho árduo e, muitas vezes, braçal. É simplesmente um dos maiores escritores vivos, apesar de ter tudo para não sê-lo.

Em determinado momento, Gabriel García Marquez, minha outra paixão literária, afirma que Saramago abraçou a literatura na idade em que a maioria dos escritores está em final de carreira e, ainda hoje, escreve como se tivesse apenas 18 anos. Claro que ele não se refere à imaturidade literária de um quase imberbe escritor, mas estima seu vigor que tão poucos escritores de sua idade conseguem manter.

Saramago tinha 53 anos quando começou a cultivar o terreno das palavras e isto me deixa animada para que um dia, quem sabe, eu, inspirada neste gênio ainda vivo, venha a investir parte de mim e de meu tempo na escrita. Tal como Saramago, espero um dia encontrar minha Lavre, uma pequena aldeia alentejana que lhe serviu de base para sua carreira tardia, mas ainda tão promissora.

Muito emocionante para mim foi ver Saramago ao lado de Fernando Meirelles assistindo Blindness. Ao final, o escritor confessa ao realizador que sentiu-se muito contente por ter assitido à película e acrescenta: uma emoção que ele só teve ao terminar o Ensaio sobre a cegueira. Meirelles, muito emocionado se diz muito feliz com o que ele acaba de dizer e lança-lhe um beijo agradecido na careca lúcida do Nobel. Como sempre, no documentário, as lágrimas lhe vieram aos olhos. E aos meus também…

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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