Nuvem de água

Pessoas têm vidas paralelas, seguem juntas sem se cruzarem.

Outras, convergentes, acabam se encontrando num canto do mundo. Explicar a razão é gesto vazio, como cabaça depois de feita a manteiga.

No entanto, na cabaça de manteiga não se faz hidromel.
Nem as vacas nem as abelhas deixariam.

PEPETELA1_1280x1940Há muito tempo que um livro não me fazia chorar. Olha que eu sou uma manteiga derretida, como dizia minha mãe. Além disso, se eu já vinha amadurecendo a idéia de ir à África, agora, após O planalto e a estepe, de Pepetela, não tenho dúvidas de que hei de fazê-lo. Mais especificamente Angola. Digam-me o que quiserem acerca da violência, dos perigos, dos roubos, corrupção e falcatruas. Para mim, ir a Angola é acontecimento que mais cedo ou mais tarde terá lugar nesta minha vida. Ademais, eu venho da terra das balas perdidas, da enorme desigualdade social, dos contrastes extremos, onde o pior e o melhor vivem lado a lado. Ir a Angola, portanto, deveria ser como conhecer um recanto longínquo do território ao qual pertenço, até mesmo, quiçá, da minha própria história pessoal e nacional.

Não conto nada acerca do livro. Ele precisa ser lido para que se entenda porque Pepetela é tão bom escritor e porque há, dentro de cada um de nós, uma África a ser descoberta.

(…) mas todos nós sabemos como África sabe se transformar naquela que cada um tem dentro de si.

A história é real, de um amor impossível entre dois jovens que se conhecem em Moscou: um angolano de olhos azuis e uma mongol com cara de lua cheia. Os fictícios Sarangerel e Julio ou, como nos deixa entrever Pepetela, os reais Suren e Piricas.

O mais interessante foi, para além de me reconhecer e ter implicitamente parte da minha própria história contada no livro, ver muitas pessoas que fazem parte da minha vida através dele. Não porque seus personagens me lembrem alguém ou algum fato, mas porque os diversos sentimentos que me foram sendo revelados me remetiam aos sentimentos dessas pessoas que conheço. Sentimentos de que tenho conhecimento e outros por mim imaginados. Queria dar um livro para cada uma delas, mas haja dinheiro — que concluao tão chão, após chegar às nuvens — para comprar um exemplar para cada uma e pagar correio internacional… É verdade, teriam que ser mesmo muitos livros para vários destinos. Ainda assim, é provável que eu o faça, aos poucos… Mas fica aqui o primeiro capítulo, disponibilizado pelo próprio autor em seu site.

Mas, como eu ia dizer, amores impossíveis não existem, apenas amores adiados. Se não nesta vida, mas para depois dela ou para a próxima existência. É assim que penso desde sempre e tenho motivos de sobra para crê-lo.

Oh como se repetem experiências.

Uma vez e ainda mais outra.

Nunca se aprender nada sobre o amor e ele é um eterno retorno ao tema das cabaças trocadas.

Nem sempre, porém, a cabaça de manteiga destrói a de mel.

Luares de esperança no horizonte.

Então, o livro, o que hei eu de dizer a seu respeito? “Gostei imenso”, como se diz em Portugal. Amei mesmo e, talvez, mais ainda, graças ao amor ele mesmo.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

One Response to Nuvem de água

  1. Pingback: Isabel, Nina e Eu 3.0 [de Coimbra]

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