Cidadania portuguesa, com certeza

Tenho cidadania portuguesa desde 1993, mas somente a partir do ano passado, 15 anos depois, comecei a exercer aquilo que se pode chamar de cidadania. No ano passado comecei a pagar impostos e ter direito a segurança social e este ano, para além da declaração de renda (IRS), também votei. Aliás, votei mesmo há pouco na Casa do Povo da minha freguesia, em São Martinho do Bispo.

(As Casas do Povo surgiram com o decreto lei nº 23 051 de 22 de Setembro em 1933, durante o longo governo de Salazar. Visando a cooperação social, tinha como principal objetivo “promover a melhoria das condições sociais dos mais desfavorecidos e ainda o fortalecimento de laços entre proprietários rurais e trabalhadores no sentido da preservação moral e espiritual das parcelas rurais” [referência]. Apesar de ter sido uma das marcas do Salazarismo, as Casas do Povo não foram extintas após o 25 de abril de 1974 e até hoje permanecem como referência política e social local promovendo uma série de atividades importantes para a comunidade.

A primeira Casa do Povo do distrito de Coimbra surgiu na aldeia de Meda de Mouros, e que ainda hoje é uma aldeia, onde meu pai nasceu e foi criado até os 19 anos, antes de ir para o Brasil. Esta primeira Casa do Povo foi construída num terreno doado pela família do meu pai, herança da minha avó Altina, processo este que foi liderado pelo meu avô José Borges. A segunda Casa do Povo do distrito de Coimbra foi esta em que eu votei hoje.)

Sinceramente, a votação na minha freguesia — sim, pois não sei se é exatamente igual em todas — foi de uma simplicidade que beirou a ingenuidade. É difícil crer que tenha sido num país da União Européia, que tem tantas e infinitas exigências para todo tipo de questão e que devem ser cumpridas por todos os Estados-membros. Explico.

Ao chegar à Casa do Povo havia um papel onde se dizia em que mesa eu votaria. A minha foi a 9. Daí apresentei meu cartão do cidadão e me perguntaram meu número de eleitor. Eu lhes disse e a mesária marcou um x no meu nome. Detalhe: eu não assinei. A seguir deram-me uma folha que constava de uma lista em ordem alfabética com todos os partidos. O papel não tinha marcas para fazer dobras, carimbo ou seja lá o que fosse de modo a certificar sua autenticidade como cédula eleitoral. Parecia uma fotocópia feita na papelaria do bairro. Depois, indicaram-me o biombo atrás do qual eu deveria preencher o papel. Fiz tudo o que me mandaram e coloquei na urna. Fui embora para casa com a sensação de que algo estava faltando. Eu não tinha outro comprovante além da cruzinha marcada no meu nome, numa longa lista de eleitores inscritos.

Sinceramente, achei o processo um grande convite á fraude eleitoral. Afinal, quem me garante que os que resolveram não votar para ir à praia neste belíssimo dia de outono-verão não terão uma cruzinha semelhante a minha ao lado do seus nomes? Sim, porque aqui vota quem quer, quem está “in the mood” para votar. Concordo com a não-obrigatoriedade. Mas, sinceramente, senti saudade das urnas eletrônicas, de assinar e de sair com um papelzinho com código de barras impresso em gráfica oficial, meu comprovativo de voto.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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