De Maitê a Saramago

Duas polêmicas fizeram do mês de outubro de 2009 o mês das ofensas em Portugal, atingindo em cheio o português no que tem de mais arraigado: orgulho e fé.

É verdade que é bem comum que um povo seja orgulhoso do que é, mesmo com todos os problemas que tenha uma nação. O português, porém, carrega um fardo que é a história do que foi Portugal, com uma saudade do que, a princípio, não é factível que ele venha ser. Bom, ninguém precisa ser a China ou os EUA, ao menos não novamente. E é neste novamente que dá aquele complexo de inferioridade de anjo decaído com o qual ninguém gosta de conviver.

Por falar nisto, a fé católica em Portugal é algo que já faz parte da lusitanidade. As razões históricas são profundas, meio óbvias e não cabem neste post. Mas o fato é que, por aqui, falar mal de algo que tenha a ver com a Igreja é falar mal de Portugal e, por extensão, do ser português. Isto não seria estranho se o Estado português não fosse auto-declaradamente laico. Portugal não é Israel, Irã e outros tantos estados cuja crença religiosa faz parte da lógica de governo. Até porque, é bom lembrar, no 25 de abril o país teve uma revolução comunista, não é verdade? Sim, mas, a lógica marxista não entrou “com bola e tudo”. Por isso, não admira que, no canal de televisão do Estado, haja até mesmo um programa de notícias da Igreja Católica.

Quanto à Maitê Proença não pretendo dar grandes vôos acerca da polêmica sobre o videozinho da atriz. Ela profanou história, cultura e fé portuguesas, logo, não espanta muito o resultado de sua infâmia. Mas, sinceramente, ela não merece grandes comentários. Muito menos a reação de marido traído que se teve em Portugal, pois um pouco de superioridade não teria feito mal a ninguém. Contudo, tenho que dizer que me senti particularmente ofendida pela atriz que, ao invés de se desculpar por sua falta de, sei lá, quase tudo, justifica seu comportamento com a frase “brasileiro é assim mesmo”. Diante disso, só posso concluir que seu problema é estrutural, o que a torna a atriz mais talentosa na arte de ofender povos.

Enfim, passemos ao melhor: Saramago. Afinal, nem se compara Maitê com Saramago. Isto porque, diferente do trabalho da Maitê, considero o trabalho do Nobel um dos mais respeitáveis.

Bem, Saramago é um escritor português ateu que se auto-exilou nas Canárias. Isto por si só já seria um prato cheio por aqui. Saramago, porém, foi mais longe e, no lançamnto de seu último romance, Caim, afirmou que a Bíblia é um manual de maus-costumes e que seríamos pessoas melhores se a Bíblia não existisse. Sua ênfase é sobre o Velho Testamento, o que levou a reações do bispado e de representantes do Judaismo.

Desta maneira, “em directo”, em plena hora do jantar e no telejornal das oito, a lusitanidade sofreu golpes profundos. Primeiro de uma atriz que em Portugal era muito querida. Depois, de um compatriota que se recusa a viver em território português por convicção política e que considera a fé católica prescindivel.

A desmesura, em ambos os casos, leva-nos a pensar que há algo mais profundo do que a mera aparência é capaz de nos mostrar. Na polêmica de Saramago, porém, fica mais evidente o modo como a fé católica faz parte do “ser português”. Um eurodeputado chegou a declarar que o escritor deveria abdicar de sua nacionalidade portuguesa, tal como ameaçou fazê-lo quando seu “O evangelho segundo Jesus Cristo” também foi pivô de outra grande polêmica envolvendo política e igreja. Neste contexto, sua veemente recusa à fé católica é vista como recusa à própria nacionalidade portuguesa.

Não sei, mas às vezes, desconfio que a idéia de um povo “escolhido” é uma questão mais séria do que se imagina e, pior, mais comum também…

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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