Leitura de um Brasil: o inferno da minoria maioral

Estou fora do Brasil há apenas dois anos e meio, mas me impressionam algumas idéias de quem está no país.

Um exemplo. Após ler o editorial de hoje do Estadão, indicação do Senador Cristovam Buarque,  fico espantada com o modo como Lula e a possível reeleição do PT, através de Dilma Rousseff, ameaçam uma “minoria”. Até porque foi justamente essa mesma “minoria” que, indiretamente, “permitiu”, pode-se dizer, a primeira vitória de Lula. Lembro-me perfeitamente que o próprio Fernando Henrique Cardoso, nas entrelinhas, conduzia a esse processo e mesmo os veículos de comunicação pareceram incrivelmente levantar bandeira branca, deixando de criticar demasiadamente o candidato petista em 2002. A questão foi que o candidato, após eleito e reeleito, cresceu de tal forma que saiu do controle dessa “minoria”. Sobre isto, recordo inclusive de uma entrevista de Franklin Martins à Caros Amigos, após a reeleição de Lula, em que afirmava que a “era da pedra no lago” tinha acabado.

Para mim é evidente que até o primeiro mandato de Lula havia certo controle sobre o que se fazia no governo. Contudo, após a reeleição, no jogo do poder, Lula passou a ter mais vantagem. Agora, a antiga “minoria” padece incrivelmente do “mal” de ser minoria de fato, diante de um apoio popular que supostamente extrapola qualquer controle que antes se exercia mais facilmente. Logo, vejo que o suposto receio do avesso da democracia ou de um regime autoritário parece mais um desejo de que isto assim se dê, afinal, a maioria dos da minoria que hoje reclama colaborou em anteriores governos autoritários. Não creio que para a minoria a democracia seja realmente o melhor dos mundos.

Democracia, porém, pressupõe imprevisibilidades, na medida em que a escolha é feita pela maioria, como consequência de uma luta em que, no mínimo, duas partes querem o mesmo, mas só uma ganha.

Uma coisa nisso tudo acho que é boa: a minoria talvez comece a perceber que deve aprender a fazer oposição, já que até então não sabia exatamente o que isso era. A história do Brasil seguia sempre a cartilha da alternância do poder que, como uma ladainha, chegava sempre ao mesmo lugar, sempre ocupado pela minoria. Porém, agora, precisam gastar muito mais que saliva, tinta e bytes para convencer milhões de votantes que, ao invés de Lula ser a encarnação do anticristo, serão eles mais capazes de governar para a maioria.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

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