Portugal, o Estado e a falta de jeito

Há tempos venho refletindo sobre o Estado e a mentalidade do cidadão em Portugal. Obviamente que isto dá muitas teses de doutorado e não consigo expor tudo o que há num post. Mas vamos ao que me interessa…

Sou brasileira e na minha vida, efetivamente, o Estado brasileiro esteve realmente muito presente na minha educação. Só. Nunca contei com o Estado para muito mais além disso. Nos outros campos onde o Estado esteve envolvido durante os 36 anos e meio em que lá vivi, de modo geral, tem sido mal sucedido. É verdade que tivemos uns 30 anos de ditadura, mas não percebo este estado autoritário como bem sucedido do ponto de vista de sua influência na minha vida cotidiana, pois, exceto mesmo pela minha educação, como disse, nunca contei com o estado para mais nada.

Fico realmente aparvalhada quando formam-se vários movimentos que receiam uma “espécie de comunismo” no Brasil. Sinceramente, não vejo qualquer possibilidade de haver estado comunista ou algo que se assemelhe no Brasil. Parece incrível o que vou dizer, mas a estrutura do “jeitinho” que nos parece um defeito quando vamos aos países desenvolvidos é também um trunfo que temos. O “jeitinho brasileiro” é a possibilidade de contínua e imprevisivelmente reverter o fluxo das coisas e alterar os resultados. Nos dias de hoje, não há nada mais original e à frente do tempo. No Brasil, temos é que aprender a utilizar isto de modo a integrar a todos, para construirmos uma nação forte. Ressaltando: nação e não Estado forte. Isto porque a idéia do “jeitinho” seria muito interessante se utilizada com vistas ao coletivo também e não voltada exclusivamente para o ganho pessoal – até porque, do ponto de vista pessoal, no Brasil, sempre foram muito poucos os que ganharam com este “jeitinho”.

Estado forte, provedor, presente, tal como na Inglaterra, França… e até em Portugal pode ter tido seu lado bom. Mas acho que precisamos de um lugar no meio entre a ausência e a enorme presença do Estado. A ausência do estado causa danos à cidadania muito difíceis de lidar. Pode-se ver isto na história do Brasil e, atualmente, vemos o extremo do Haiti. Contudo, creio que sua presença maciça também causa muitos “traumas”.

Como conciliar interesse pessoal e coletivo? Sinceramente, não sei ainda, estou na busca de entender esta questão. Já sabemos que a resposta não está nem no comunismo e nem no liberalismo. Mas sei que, aqui em Portugal, paira um ranço de uma história que insiste em se reinventar e me leva a temer meu futuro e o de minha filha. Não há nada o que temer especificamente, pessoalmente, nenhuma ameaça, se é isso que se quer saber. Mas eu temo por não saber lidar com o fato de que o Estado aqui é previsível quanto a sua disposição em dificultar as coisas e tomar partido no nosso lugar.

Além disso, em Portugal, há uma postura de inflexibilidade que independe de partidos políticos ou de posição social, que independe da figura de poder que lá esteja, pois parece ter penetrado na alma de grande parte dos que nasceram e foram criados aqui. Admiro cada vez mais meu pai que, ao ver este cenário reproduzido dentro da sua casa, resolveu dispor do futuro de modo mais criativo para si e, consequentemente, também para mim. E é provável que minha filha também tenha muito a ganhar com isto.

Decididamente, falta jeito a Portugal. Dava-lhe jeito, como se diz por aqui. Acho que os que tem esta espécie de jeito vão-se embora. Talvez eles pensem, tal como Eça de Queiróz, que Portugal não é um país, mas apenas um sítio, um lugar e, em última instância, uma espécie de feudo onde já existe senhor e nada mais se pode fazer além da mera vassalagem.

Sobre Monica Carvalho
Pelos motores de busca e por um comentário há tempos aqui no meu blog, imagino a quantidade de figuras que acham que o Nina e eu é o blog da modelo que posou nua na revista. Que desilusão ao perceber que a homônima aqui escreve muito sobre cinema, músicas estranhas, política e comunicação social, quando não escreve uns contos ou umas poesias. Aqui, caro leitor, não tem bundinha de fora, nem peitinho à mostra, nem pelos púbicos ou partes depiladas. Mas às vezes, acabo comentando acerca de umas safadezas que acontecem nesse nosso mundo doido de pedra. Algumas delas são mais indecentes que qualquer imagem de revista masculina. Ai, ai, mundo cruel, sobretudo para os internautas necessitados que na busca de uma fotinho pra aliviar as entranhas, têm que tocar o bicho com meus comentários sobre política internacional ou ao som do Tom Zé.

One Response to Portugal, o Estado e a falta de jeito

  1. A crítica ao Estado é pertinente em qualquer lugar em que estivermos, pois esse nosso planeta está globalizado em suas qualidades e inúmeors defeitos (em relação a defeitos, a globalização capricha).
    Meu pai, como o seu, fez a viagem de partida com sua família quando Salazar (não sei ao certo se é assim que se escreve esse nome) governava com mão pesada. Ele chegou ao Brasil, país que só saiu para passeio além fronteiras quase aos 80 anos, com medos ínfantis de um Estado Português que o puniria por voltar a terra natal. Nunca havia entndido isso em minha vidaa, mas acho ser real.
    Tive duas experiências em Portugal: uma um pouco mais longa e outra na espera de conexão no aeropoto de Lisboa em outubro último. Nas duas uma certeza se cristaliza: a lógica desse povo realmente é prórpia e , como uma criança, confesso: tenho medo deles. Beijos e saudades, Mônica. Dê um beijo longo na minha sobrinha linda, Isabel.
    Rey

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