A história vem com o tempo

Em novembro de 2009, eu escrevi aqui neste blog um artigo que, salvo pequenas alterações, também foi publicado no Observatório da Imprensa no dia 10 de novembro. Neste, eu dizia que:

[…] o suposto receio do avesso da democracia ou de um regime autoritário, expressado em outros canais, para além do editorial do Estadão, parece mais um desejo de que isto assim se dê. De fato, a maioria dos da minoria, que hoje reclamam, colaborou em anteriores governos autoritários. Logo, não creio que, para esta minoria, a democracia seja realmente o melhor dos mundos.

A idéia não era fazer defesa do atual governo, entretanto parecia previsível que havia qualquer ranso pré-64 no ar, muito embora eu não fizesse parte do mundo dos vivos nesta época e não saiba narrar o sentimento que pairava então.

Pois bem, creio que vale a pena a leitura da bela análise de conjuntura feita por Luís Carlos Azenha em seu blog. Por conjuntura quero dizer as relações entre os meios de comunicação e o poder.

Outra coisa, mas ainda no mesmo sentido.

Para além disso, assusta-me que algumas pessoas que aprecio e conheço pessoalmente estejam observando as coisas por vieses ultra-direitistas e lulofóbicos. Para mim, toda aversão obscurece o pensamento e bitola a alma. Não sou petista, não sou de esquerda, nunca fui comunista, nem militante de coisa alguma. Minha causa é humana acima de tudo: pela paz dos corpos, dos espíritos e pela boa convivência entre tudo e todos. Vivo em busca disto e com base nisto educo minha filha.

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Leitura de um Brasil: o inferno da minoria maioral

Estou fora do Brasil há apenas dois anos e meio, mas me impressionam algumas idéias de quem está no país.

Um exemplo. Após ler o editorial de hoje do Estadão, indicação do Senador Cristovam Buarque,  fico espantada com o modo como Lula e a possível reeleição do PT, através de Dilma Rousseff, ameaçam uma “minoria”. Até porque foi justamente essa mesma “minoria” que, indiretamente, “permitiu”, pode-se dizer, a primeira vitória de Lula. Lembro-me perfeitamente que o próprio Fernando Henrique Cardoso, nas entrelinhas, conduzia a esse processo e mesmo os veículos de comunicação pareceram incrivelmente levantar bandeira branca, deixando de criticar demasiadamente o candidato petista em 2002. A questão foi que o candidato, após eleito e reeleito, cresceu de tal forma que saiu do controle dessa “minoria”. Sobre isto, recordo inclusive de uma entrevista de Franklin Martins à Caros Amigos, após a reeleição de Lula, em que afirmava que a “era da pedra no lago” tinha acabado.

Para mim é evidente que até o primeiro mandato de Lula havia certo controle sobre o que se fazia no governo. Contudo, após a reeleição, no jogo do poder, Lula passou a ter mais vantagem. Agora, a antiga “minoria” padece incrivelmente do “mal” de ser minoria de fato, diante de um apoio popular que supostamente extrapola qualquer controle que antes se exercia mais facilmente. Logo, vejo que o suposto receio do avesso da democracia ou de um regime autoritário parece mais um desejo de que isto assim se dê, afinal, a maioria dos da minoria que hoje reclama colaborou em anteriores governos autoritários. Não creio que para a minoria a democracia seja realmente o melhor dos mundos.

Democracia, porém, pressupõe imprevisibilidades, na medida em que a escolha é feita pela maioria, como consequência de uma luta em que, no mínimo, duas partes querem o mesmo, mas só uma ganha.

Uma coisa nisso tudo acho que é boa: a minoria talvez comece a perceber que deve aprender a fazer oposição, já que até então não sabia exatamente o que isso era. A história do Brasil seguia sempre a cartilha da alternância do poder que, como uma ladainha, chegava sempre ao mesmo lugar, sempre ocupado pela minoria. Porém, agora, precisam gastar muito mais que saliva, tinta e bytes para convencer milhões de votantes que, ao invés de Lula ser a encarnação do anticristo, serão eles mais capazes de governar para a maioria.

De Maitê a Saramago

Duas polêmicas fizeram do mês de outubro de 2009 o mês das ofensas em Portugal, atingindo em cheio o português no que tem de mais arraigado: orgulho e fé.

É verdade que é bem comum que um povo seja orgulhoso do que é, mesmo com todos os problemas que tenha uma nação. O português, porém, carrega um fardo que é a história do que foi Portugal, com uma saudade do que, a princípio, não é factível que ele venha ser. Bom, ninguém precisa ser a China ou os EUA, ao menos não novamente. E é neste novamente que dá aquele complexo de inferioridade de anjo decaído com o qual ninguém gosta de conviver.

Por falar nisto, a fé católica em Portugal é algo que já faz parte da lusitanidade. As razões históricas são profundas, meio óbvias e não cabem neste post. Mas o fato é que, por aqui, falar mal de algo que tenha a ver com a Igreja é falar mal de Portugal e, por extensão, do ser português. Isto não seria estranho se o Estado português não fosse auto-declaradamente laico. Portugal não é Israel, Irã e outros tantos estados cuja crença religiosa faz parte da lógica de governo. Até porque, é bom lembrar, no 25 de abril o país teve uma revolução comunista, não é verdade? Sim, mas, a lógica marxista não entrou “com bola e tudo”. Por isso, não admira que, no canal de televisão do Estado, haja até mesmo um programa de notícias da Igreja Católica.

Quanto à Maitê Proença não pretendo dar grandes vôos acerca da polêmica sobre o videozinho da atriz. Ela profanou história, cultura e fé portuguesas, logo, não espanta muito o resultado de sua infâmia. Mas, sinceramente, ela não merece grandes comentários. Muito menos a reação de marido traído que se teve em Portugal, pois um pouco de superioridade não teria feito mal a ninguém. Contudo, tenho que dizer que me senti particularmente ofendida pela atriz que, ao invés de se desculpar por sua falta de, sei lá, quase tudo, justifica seu comportamento com a frase “brasileiro é assim mesmo”. Diante disso, só posso concluir que seu problema é estrutural, o que a torna a atriz mais talentosa na arte de ofender povos.

Enfim, passemos ao melhor: Saramago. Afinal, nem se compara Maitê com Saramago. Isto porque, diferente do trabalho da Maitê, considero o trabalho do Nobel um dos mais respeitáveis.

Bem, Saramago é um escritor português ateu que se auto-exilou nas Canárias. Isto por si só já seria um prato cheio por aqui. Saramago, porém, foi mais longe e, no lançamnto de seu último romance, Caim, afirmou que a Bíblia é um manual de maus-costumes e que seríamos pessoas melhores se a Bíblia não existisse. Sua ênfase é sobre o Velho Testamento, o que levou a reações do bispado e de representantes do Judaismo.

Desta maneira, “em directo”, em plena hora do jantar e no telejornal das oito, a lusitanidade sofreu golpes profundos. Primeiro de uma atriz que em Portugal era muito querida. Depois, de um compatriota que se recusa a viver em território português por convicção política e que considera a fé católica prescindivel.

A desmesura, em ambos os casos, leva-nos a pensar que há algo mais profundo do que a mera aparência é capaz de nos mostrar. Na polêmica de Saramago, porém, fica mais evidente o modo como a fé católica faz parte do “ser português”. Um eurodeputado chegou a declarar que o escritor deveria abdicar de sua nacionalidade portuguesa, tal como ameaçou fazê-lo quando seu “O evangelho segundo Jesus Cristo” também foi pivô de outra grande polêmica envolvendo política e igreja. Neste contexto, sua veemente recusa à fé católica é vista como recusa à própria nacionalidade portuguesa.

Não sei, mas às vezes, desconfio que a idéia de um povo “escolhido” é uma questão mais séria do que se imagina e, pior, mais comum também…

Mídia brasileira ainda faz pensar?

Não sei. Mas, ao menos, dá o que falar…

Li hoje A manchete que a imprensa escondeu, no Observatório da Imprensa. OK, a mídia, de um modo geral, dá sempre um bom alvo para atacarmos, mas só quando a gente sai do Brasil percebe o quanto a mídia brasileira é medíocre informativamente.

Apesar da tristeza que sinto com isto, acho que nada mais me surpreende até porque investigo há alguns anos nesta área. Ainda assim, compartilho minha primeira grande decepção com nossa mídia. Em 1993, quando vim pela primeira vez à Portugal – não que haja aqui mídia melhor – me deparei com as notícias terríveis sobre o Timor e percebi muito triste que, até então, nunca se tinha dito nada a respeito na mídia brasileira.

No Brasil a mídia se preocupa tanto com o tiro que deve dar no rabo alheio que não vê que o faz contra seu próprio rabo. Não vêem que há o mundo muito além do próprio umbigo oligopolista que a caracteriza.

Idiossincrasias da propaganda política em Portugal II

Mais um capítulo sobre a propaganda política portuguesa…

A protagonista agora é a candidata à Câmara do Porto, Elisa Ferreira, do Partido Socialista (PS), que, sem qualquer constrangimento, também era candidata do PS ao Parlamento Europeu. Contudo, sua equipe de marketing e propaganda parece partir do princípio que ninguém vai perceber que sua capacidade de compactuar com as aspirações dos eleitores é quase nula. Isto se explicita no próprio conceito visual dos cartazes que povoam as ruas da cidade.

Em todos os cartazes Elisa Ferreira encontra-se supostamente no meio dos cidadãos comuns. Ao menos isso é o que se quer passar, pois a imagem é sempre uma montagem fotográfica. Nestas montagens, a candidata do PS nunca olha para ninguém e comporta-se como se tivesse caído de pára-quedas no cenário.

Tirei uma fotografia de um desses outdoors, mas não sei se será possível perceber tão bem quanto ao vivo.

Sem defender nenhum dos candidatos à Câmara do Porto – até porque eu não vou votar na cidade -, seu opositor, Rui Rio, do Partido Social Democrata (PSD), foi mais esperto. Ele é o atual do posto e quer se reeleger. Sente-se à vontade, portanto, em basear parte de sua campanha na evidente displicência política e subestimação dos eleitores da adversária do PS. Diz-nos apenas: “Com os dois pés no Porto”, sem montagens, apenas com sua fotografia, nome e a marca do partido.

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Idiossincrasias da propaganda política em Portugal I

Estamos em época de eleições para o Parlamento Europeu. A campanha acontece, mas não me canso de ver coisas esquisitas.

No Brasil, as campanhas também são marcadas por coisas ridículas e estranhas que, infelizmente, não se limitam aos nomes dos candidatos. Mas, em geral, são mesmo mais comuns nos partidos pequenos. Por aqui, um partido com certa presença como o CDS (Partido Popular) faz coisas como a que está aí: um slogan péssimo que, ao lado da marca do partido (no canto inferior direito), acaba dando um resultado para lá de sugestivo.

É difícl acreditar que apenas eu possa ter pensado o que pensei quando vi este outdoor abaixo numa das principais ruas da Foz, no Porto. Putz…

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Pérolas do jornalismo em Portugal

Em Portugal há apenas quatro canais de TV abertos: RTP1, RTP2, SIC e TVI. As duas primeiras são do Estado e as outras privadas. Mas, é verdade, apesar de “abertos” por aqui não existe televisão ou rádio que não sejam pagas. Qualquer cidadão paga uma contribuição áudio-visual que está vinculada ao pagamento da luz. Mesmo que não liguemos a TV ou o rádio, somos obrigados a pagar por estes serviços, embora a qualidade da programação televisionada seja bem duvidosa. A única que salva é a RTP2, cuja programação se propõe a ser o mais educativa possível.

Recentemente, porém, na TVI, tivemos a oportunidade de ver um confronto entre dois representantes óbvios do poder em Portugal: a jornalista/esposa do dono da TVI Manuela Moura Guedes e o bastonário da Ordem dos Advogados de Portugal Marinho Pinto, que, no Brasil, equivale ao presidente da OAB.

Marinho Pinto é uma persongem nacionalmente conhecida como sendo “sem papas na língua”, pois não sente nenhum constrangimento em dizer o que pensa em qualquer circunstância. Seu discurso costuma ser admirável e sempre apresenta fatos bem concretos acerca do que diz. Não é politiqueiro, se querem saber, e está sempre com disposição de dar a cara ao jogar a m* da justiça no ventilador.

A TVI, por sua vez, está longe de ser um exemplo de bom jornalismo e sua programação é a pior dentre todos os canais. A Manuela Moura Guedes, infelizmente, não foge a regra e, obviamente, não faria nada que desagradasse seu maridinho no ar.

Mas, vamos deixar de explicações e assistamos o que eu denominaria um babado forte ou mesmo um belo exemplo de democracia que, infelizmente, nunca consegui ver na televisão brasileira. Um aula de crítica ao jornalismo, afinal já que pagamos…