Cortázar

Leio ” A volta ao dia em 80 mundos”. Recordo-me o quanto gosto do Cortázar. Se eu pudesse escolher como eu gostaria de escrever eu diria que queria escrever tal como ele.

Abaixo, o três primeiros parágrafos do delicioso “Do sentimento de não estar totalmente”:

Serei sempre uma criança para muitas coisas, mas uma dessas crianças que desde o princípio trazem dentro de si o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega realmente a adulto, acontece que este traz também dentro de si a criança, e nel mezzo del camin dá-se uma coexistência raramente pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Tudo isto pode entender-se metaforicamente, mas em qualquer caso é indicador de um temperamento que não renunciou à visão pueril como preço da visão adulta, e esta justaposição que faz o poeta e talvez o criminoso, assim como o cronópio e o humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora brinco, agora mato) manifesta-se pelo sentimento de não estar totalmente em nenhuma das estruturas, das teias que a vida arma e nas quais somos simultaneamente aranha e mosca.

Muito do que tenho escrito se pode definir sob o signo da excentricidade, uma vez que jamais admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver chego a dissimular uma participação parcial na minha circunstância, não posso por outro lado negá-la naquilo que escrevo, uma vez que escrevo precisamente por não estar ou por estar de forma parcial. Escrevo por defeito, por deslocação; e como escrevo a partir de um interstício, estou sempre a convidar os outros a procurem os seus e a olharem por eles, o jardim onde as árvores dão frutos que, obviamente, são pedras preciosas. O monstrinho continua firme no seu lugar.