Cortázar

Leio ” A volta ao dia em 80 mundos”. Recordo-me o quanto gosto do Cortázar. Se eu pudesse escolher como eu gostaria de escrever eu diria que queria escrever tal como ele.

Abaixo, o três primeiros parágrafos do delicioso “Do sentimento de não estar totalmente”:

Serei sempre uma criança para muitas coisas, mas uma dessas crianças que desde o princípio trazem dentro de si o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega realmente a adulto, acontece que este traz também dentro de si a criança, e nel mezzo del camin dá-se uma coexistência raramente pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Tudo isto pode entender-se metaforicamente, mas em qualquer caso é indicador de um temperamento que não renunciou à visão pueril como preço da visão adulta, e esta justaposição que faz o poeta e talvez o criminoso, assim como o cronópio e o humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora brinco, agora mato) manifesta-se pelo sentimento de não estar totalmente em nenhuma das estruturas, das teias que a vida arma e nas quais somos simultaneamente aranha e mosca.

Muito do que tenho escrito se pode definir sob o signo da excentricidade, uma vez que jamais admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver chego a dissimular uma participação parcial na minha circunstância, não posso por outro lado negá-la naquilo que escrevo, uma vez que escrevo precisamente por não estar ou por estar de forma parcial. Escrevo por defeito, por deslocação; e como escrevo a partir de um interstício, estou sempre a convidar os outros a procurem os seus e a olharem por eles, o jardim onde as árvores dão frutos que, obviamente, são pedras preciosas. O monstrinho continua firme no seu lugar.

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Sobre o que escrevi há dois posts do livro do Pepetela, adianto que um livro já foi encaminhado a uma amiga.

Vamos ver se o dou a mais alguém.

Embora o tempo…

Embora o tempo seja escasso e precioso, escolhi dois livros novos para ler: Leite derramado, último do Chico Buarque, e Jesusalém, último do Mia Couto. Meu critério é sempre o mesmo, leio o primeiro parágrafo e ponto. Não há nada tão difícil quanto escrever um primeiro parágrafo de uma narrativa e, nestes dois livros, os autores foram excelentes no começo. Além disso, há que se considerar o preço, pois estavam em promoção.

Para quem quer saber, no link de Leite derramado tem o primeiro capítulo. De Jesusalém, que começa com epígrafe de Sophia de Mello Breyner Andresen já citado neste blog, vale reproduzir o começo:

A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.

Ótima leitura!

Negócios com o tempo

livro gianettiRecomecei a ler um livro que tive que abandonar há anos para concluir a tese de doutoramento: O valor do amanhã, do Eduardo Giannetti.

Muitas vezes faço isso: começo a ler, vão-se dois ou três capítulos, depois páro e nunca mais pego no livro. Mas resolvi que vou pegar os livros que ficaram nesta condição para decidir se merecem ser lidos até o fim ou não.

Recentemente, por exemplo, cheguei à conclusão de que um livro já começado não merecia ser lido até o fim, em especial após a leitura do Pepetela. O livro também falava de Angola, embora seja de um escritor português. Mas o problema não é a nacionalidade, mas talvez tenha a ver com a idade, não sei, pois é um autor bem mais jovem que o experiente angolano. No fundo, sua narrativa, apesar de atraente, era apenas mais um romance, com a peculiaridade de colocar a Luanda da luta pela independência como cenário de fundo. Cheguei a falar sobre ele aqui no blog, ano passado, quando ainda estava grávida. Na ocasião, achava que não ia conseguir ler com o sono que eu tinha por causa da gravidez. Mas hoje vejo que, apesar de não ter sono mais quando o leio, preciso ser muito prática quanto ao tempo que devo dedicar às leituras. Acho que isto é uma consequência da minha condição de mãe-sem-tempo-de-fazer-muita-coisa que me leva a ver meu pouco tempo livre como algo sagrado. Por isto, talvez, Giannetti tenha mesmo vindo a calhar.

Em O valor do amanhã, Giannetti pretende mostrar como a noção de lucro ultrapassa os limites da economia e se encontra presente em vários aspectos da vida humana, desde a biologia da evolução até a morte e depois dela, em particular, com as diversas interpretações religiosas sobre “o lado de lá”. Reli apenas o primeiro capítulo e o livro é grande. Também não é um romance ou algo que o valha e, segundo o próprio autor, é para os leitores que ainda tentam ler nas entrelinhas do texto e param para pensar no meio da leitura. Portanto, sabe lá quando digo que o acabei.

Além disso, devo escolher outro livro para ler também, muitos do que estão na estante a espera da minha atenção. Quando souber, digo.

Nuvem de água

Pessoas têm vidas paralelas, seguem juntas sem se cruzarem.

Outras, convergentes, acabam se encontrando num canto do mundo. Explicar a razão é gesto vazio, como cabaça depois de feita a manteiga.

No entanto, na cabaça de manteiga não se faz hidromel.
Nem as vacas nem as abelhas deixariam.

PEPETELA1_1280x1940Há muito tempo que um livro não me fazia chorar. Olha que eu sou uma manteiga derretida, como dizia minha mãe. Além disso, se eu já vinha amadurecendo a idéia de ir à África, agora, após O planalto e a estepe, de Pepetela, não tenho dúvidas de que hei de fazê-lo. Mais especificamente Angola. Digam-me o que quiserem acerca da violência, dos perigos, dos roubos, corrupção e falcatruas. Para mim, ir a Angola é acontecimento que mais cedo ou mais tarde terá lugar nesta minha vida. Ademais, eu venho da terra das balas perdidas, da enorme desigualdade social, dos contrastes extremos, onde o pior e o melhor vivem lado a lado. Ir a Angola, portanto, deveria ser como conhecer um recanto longínquo do território ao qual pertenço, até mesmo, quiçá, da minha própria história pessoal e nacional.

Não conto nada acerca do livro. Ele precisa ser lido para que se entenda porque Pepetela é tão bom escritor e porque há, dentro de cada um de nós, uma África a ser descoberta.

(…) mas todos nós sabemos como África sabe se transformar naquela que cada um tem dentro de si.

A história é real, de um amor impossível entre dois jovens que se conhecem em Moscou: um angolano de olhos azuis e uma mongol com cara de lua cheia. Os fictícios Sarangerel e Julio ou, como nos deixa entrever Pepetela, os reais Suren e Piricas.

O mais interessante foi, para além de me reconhecer e ter implicitamente parte da minha própria história contada no livro, ver muitas pessoas que fazem parte da minha vida através dele. Não porque seus personagens me lembrem alguém ou algum fato, mas porque os diversos sentimentos que me foram sendo revelados me remetiam aos sentimentos dessas pessoas que conheço. Sentimentos de que tenho conhecimento e outros por mim imaginados. Queria dar um livro para cada uma delas, mas haja dinheiro — que concluao tão chão, após chegar às nuvens — para comprar um exemplar para cada uma e pagar correio internacional… É verdade, teriam que ser mesmo muitos livros para vários destinos. Ainda assim, é provável que eu o faça, aos poucos… Mas fica aqui o primeiro capítulo, disponibilizado pelo próprio autor em seu site.

Mas, como eu ia dizer, amores impossíveis não existem, apenas amores adiados. Se não nesta vida, mas para depois dela ou para a próxima existência. É assim que penso desde sempre e tenho motivos de sobra para crê-lo.

Oh como se repetem experiências.

Uma vez e ainda mais outra.

Nunca se aprender nada sobre o amor e ele é um eterno retorno ao tema das cabaças trocadas.

Nem sempre, porém, a cabaça de manteiga destrói a de mel.

Luares de esperança no horizonte.

Então, o livro, o que hei eu de dizer a seu respeito? “Gostei imenso”, como se diz em Portugal. Amei mesmo e, talvez, mais ainda, graças ao amor ele mesmo.

Homem-flor

Acabo de ver um documentário da RTP1 sobre José Saramago. Não foi o melhor documentário que vi, é verdade, mas foi bem emocionante e bastante surpreendente. Mostrou-se um Saramago que eu ainda não tinha visto: homem que é pura emoção, que faz jus ao signo escorpião e à encantadora falta de sobriedade de lhe terem atribuído o nome de uma flor por engano. Saramago foi o sobrenome que um escrevente bêbado, num cartório de uma terrinha típica de Portugal, lhe pôs por engano, no lugar de José de Sousa, mesmo nome do seu pai.

[Em Portugal, eram muito comuns histórias de registros civis equivocados devido a escreventes ou parentes bêbados. A meu pai, por exemplo, falta-lhe o sobrenome da mãe. À minha tia, faltou-lhe qualquer sobrenome. Até casar, a pobre chamava-se apenas Maria da Conceição. E por aí vai…]

Há muitos por aqui que não compreendem o valor de sua literatura ou mesmo de sua pessoa. Sua mulher, Pilar, em breve fala, mas com muita lucidez, explica que Saramago representa Portugal e o português como nenhuma outra figura atualmente seria capaz de representar. Ele é o filho e o neto de camponeses alentejanos analfabetos que, embora tenha tido pouquíssimo estudo, conseguiu, autodidata que foi, descobrir-se no mundo literário sem nunca abandonar suas raízes de trabalho árduo e, muitas vezes, braçal. É simplesmente um dos maiores escritores vivos, apesar de ter tudo para não sê-lo.

Em determinado momento, Gabriel García Marquez, minha outra paixão literária, afirma que Saramago abraçou a literatura na idade em que a maioria dos escritores está em final de carreira e, ainda hoje, escreve como se tivesse apenas 18 anos. Claro que ele não se refere à imaturidade literária de um quase imberbe escritor, mas estima seu vigor que tão poucos escritores de sua idade conseguem manter.

Saramago tinha 53 anos quando começou a cultivar o terreno das palavras e isto me deixa animada para que um dia, quem sabe, eu, inspirada neste gênio ainda vivo, venha a investir parte de mim e de meu tempo na escrita. Tal como Saramago, espero um dia encontrar minha Lavre, uma pequena aldeia alentejana que lhe serviu de base para sua carreira tardia, mas ainda tão promissora.

Muito emocionante para mim foi ver Saramago ao lado de Fernando Meirelles assistindo Blindness. Ao final, o escritor confessa ao realizador que sentiu-se muito contente por ter assitido à película e acrescenta: uma emoção que ele só teve ao terminar o Ensaio sobre a cegueira. Meirelles, muito emocionado se diz muito feliz com o que ele acaba de dizer e lança-lhe um beijo agradecido na careca lúcida do Nobel. Como sempre, no documentário, as lágrimas lhe vieram aos olhos. E aos meus também…

Assuntos esparsos

Além do mercado financeiro, outro assunto muito comum aqui em Portugal tem sido a discussão sobre o casamento entre homossexuais. Apesar de haver uma tendência mundial de as correntes mais à esquerda apoiarem esta causa, no país não é isso o que tem acontecido. O próprio primeiro ministro, do PS, que não é assumidamente gay, mas sobre quem o povo diz que é sim, não apoia a questão.

A sociedade portuguesa ainda é bastante tradicionalista. Por isso, o resultado de uma consulta feita por um instituto de pesquisa foi de que mais de 50% dos entrevistados eram contra este tipo de casamento.

É isso. Portugal deve continuar então onde sempre esteve neste assunto…

***

By the way, por falar em casamentos gays, ontem eu estava na confeitaria Tavi, no Porto, e ouvi um sujeito falar com um sotaque inglês. Olhei para trás e reconheci a figura: era Richard Zimler, afamado escritor de O último cabalista de Lisboa. Dia 23 será o lançamento de sua coletânea de contos aqui no Porto e, por este motivo, ele dava entrevista a um jornalista.

Ah, o que tem a ver com o assunto anterior? Há tempos li em entrevista sua em que ele se assume gay e já tem alguns anos que vive com seu companheiro numa terrinha aqui no norte de Portugal. Não sei se eles já são casados no Reino Unido, mas, com certeza, este é um assunto que lhes interessa.

Para além disto, ouve um momento tietagem de um sujeito visivelmente afetado. Nada contra a afetação, apesar de às vezes ser um bocado incoveniente, mas a tietagem era dispensável…