Música para a memória, in memoriam

Time, flowing like a river
Time, beckoning me
Who knows when we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river
To the sea

The Alan Parsons Project

Parece que foi ontem que eu me sentava diante de um fotógrafo para tirar a fotografia da turma da escola. Minha amiga Andréa estava lá ao meu lado. Por muito tempo foi assim, ela sempre estava ao meu lado, nos falávamos todos os dias, tínhamos sempre muitos assuntos para conversar. Mas a vida, por motivos que não estou bem certa, leva as pessoas a cruzarem nossos caminhos e a afastarem-se de nós. A memória dos bons momentos, porém, fica guardada. Aliás, creio que as primeiras amizades que temos na nossa vida são aquelas que constróem nossos padrões de amizades e de relações consideradas verdadeiras.

Andréa contribuiu imensamente para o que eu, com o tempo e com minha vivência, fui dando sentido ao que chamamos de AMIZADE. Ela se foi, mas o tempo que tivemos juntas fica guardado aqui no meu coração. Não mantínhamos mais contato há vários anos, é verdade. Mas não há como esquecer todos aqueles que passaram pela minha vida e tiveram um enorme significado. Acredito que ela vá continuar seu caminho, noutra esfera e, talvez, voltemos a nos reencontrar pelos descaminhos que as múltiplas existências nos conduzem. No entanto, não dava para deixar passar em branco mais essa saudade que a vida me deixa.

Quando perdi minha primeira amiga, em 2005, tive a estranha premonição de que aquela era apenas uma das muitas amizades que a vida levaria para longe. Às vezes reencontro Márcia em sonho, assim como meu primo Luís também, mas é muito estranho quando pessoas que têm idade próxima da sua tornam-se muito menos acessíveis para nós. Suas mortes levam a uma estranha quebra na alma e no tempo e passamos um período a construir déjà vus de uma memória já contaminada pela saudade.

Andréa é mais uma daquelas pessoas que agradeço por um dia tê-la conhecido. Que ela seja bem recebida na outra vida.

Um beijo sincero no seu grande coração.

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Debaixo d’água por seis meses

Hoje Isabel faz seis meses. É verdade, ela se transformou muito, sobretudo exteriormente, tudo muito normal. Mas não tenho vontade de falar sobre as mudanças da minha menina, apenas das minhas, que foram sem igual na minha vida.

É incrível como o tempo tem passado tão rapidamente, ao mesmo tempo em que é vivido com tanta intensidade. Só dessa forma pode acontecer que, em tão pouco tempo, tanta coisa tenha se passado dentro de mim. Exemplo bom, mas besta, é que até mesmo testes de internet dão resultados completamente diferentes do esperado, pois minha tendência para dar determinados tipos de respostas se alteraram radicalmente.

Hoje, tudo o que vejo – fatos, notícias, leituras, conversas, imagens – invariavelmente me afeta de uma maneira diferente, pois tenho como referência outra pessoa. É como se eu tivesse dois pontos de vista sempre, ambos de mim mesma, só que um deles é o olhar de quem vê por entre as malhas tecidas por um outro ser.

Ser mãe é decididamente uma das experiências mais bizarras que uma mulher pode viver e, ao mesmo tempo, creio eu, das mais especiais. Tudo é tão novo e tão estranhamente previsível; inesperado e aguardado; espiritual e terreno; catártico e angustiante; cotidianamente distinto; relevante e postergável; potencial e já realizável. Tudo e nada, ontem e amanhã ao mesmo tempo agora. Tudo numa vida vivida por um fio de delicadeza: a nossa própria vida.

Talvez, uma experiência dessas, por mais estranho que possa parecer, só seja comparável à nossa própria morte.

Nascer, morrer, renascer, é mesmo bom viver…

Isto tudo lembrou-me Arnaldo Antunes, cantado por Maria Bethânia. Letra logo abaixo.

Debaixo D’agua
Maria Bethânia

Composição: Arnaldo Antunes

Debaixo d’água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água se formando como um feto
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia

Debaixo d’água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água ficaria para sempre, ficaria contente
Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia

Debaixo d’água, protegido, salvo, fora de perigo
Aliviado, sem perdão e sem pecado
Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia

Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasco lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
Agora

Multiplicação

Há pessoas que não têm quase nada e conseguem fazer um banquete na vida. Ontem faleceu um irmão da época do movimento espírita que tinha exatamente esta característica. Embora tenha tido tantas dificuldades desde o início de sua breve vida, Edson construiu uma família de amigos com quem compartilhava seus talentos.

Lembro dele a ler “Genealogia da moral”, de Nietzsche; de suas peças de teatro; de sua letra e modo de escrever com a caneta entre os dedos indicador e médio; de sua autoconfiança incrível e grande teimosia; de sua força física (eu nunca o vi doente até o ano passado); ao violão tocando Legião Urbana e tantas músicas espíritas; carregando seu enorme caderno de partituras; a organizar eventos; a falar de seu doutorado em educação ou de sua experiência como professor universitário.

Não sei com detalhes acerca de sua história de vida, mas sei que a pobreza e o abandono lhe fizeram marcas profundas. Isto, porém, não impediu que Edson construisse muita coisa a sua volta, com a qual me recordo com saudade.

Que, em outro plano de vida, ele possa usufruir do banquete que preparou com o pouco que lhe foi dado. Eu, de minha parte, apesar da tristeza, sinto-me contente por ter tido a oportunidade de conhecer mais esta alma vencedora.

Um abraço carinhoso em Edson.

Balancete e memória

Há exatamente um ano eu soube que Márcia estava no CTI. No dia seguinte eu descobria com o plantonista que faltava pouco para que se desse sua morte cerebral. Sobre isto eu escrevi neste blog.

Depois desse acontecimento, muita coisa mudou para mim. Passei a ver a vida de uma forma mais prática, do tipo: se bem, bom, se não, por que me estressar tanto? Também passei a considerar o que digo tomando como parâmetro aquilo que sinto: se gosto, se quero, se não gosto, se sinto, se não sinto, então digo algo de acordo, pois é o que vale. Com isso, pequenas atitudes diárias passaram a ganhar tamanha dimensão existencial, de bem-estar, de satisfação, ao ponto de muitas vezes eu me sentir muito feliz por ser quem sou e viver como vivo apenas porque estou tomando meu banho diário.

Eu não sigo nenhuma religião, não repito mantras, nem tenho rezas prontas, apesar de acender um incenso de vez em quando, mas faz um ano que minha vida assumiu uma dimensão “religiosa”, no sentido de uma religação profunda com o que há, com o presente.

Ontem me peguei com um sentimento de profunda gratidão com o passado. Não nos damos conta do valor do tempo, do valor do tempo que passou e de como este passado é capaz de transformar o presente. Hoje, quando fico em dúvida se vou ou não fazer algo, penso: se hoje fosse meu último dia de vida, valeria a pena fazer isso? De que modo isto pode realmente ser importante como evento no dia de hoje? É assim que decido e tenho sido muito feliz em minhas escolhas. Foi isso o que expressei em meu post de ontem.

Há uma ditado no Brasil que diz que a vida valeu a pena se tivemos um filho, escrevemos um livro e plantamos uma árvore. Sinceramente, hoje percebo as falhas de princípio dessa oração. Márcia não escreveu nenhum livro, apesar de ter criado e ilustrado estórias infantis. Não teve um filho, apesar de ter dedicado sua vida às crianças, como médica e como pessoa. E, pelo que sei, acho que também não plantou árvores, apesar de ser “sócia” do Jardim Botânico, pois adorava a natureza e estava sempre lá passeando. Portanto, mais que plantar, ter um filho ou escrever, é preciso respeitar a vida, no limite que a vida nos impõe, pois nós não somos senhores e muito menos disciplinadores do viver.

Sem tristeza, mas com saudade, dedico à minha amiga “Baião de quatro toques”, do José Miguel Wisnik, uma música que ela, certamente, gostaria de ouvir.
A música está ao lado e a letra está aqui.

E essa rua, onde vai dar?

A experiência com a morte parece fazer morrer muita coisa além do corpo e leva a sentimentos que extrapolam a saudade. Uma torre parece estar ruindo dentro de mim e acho que outro edifício será construído em seu lugar. Por fora, como já disse em outro momento, tudo igual, apesar dos quilinhos a menos. Mas isso, hoje em dia, é considerado bom sinal. Por dentro, além do fígado em frangalhos, há algo em processo que ainda não foi finalizado. O que se passa internamente é somente o começo que, como em qualquer início, não é fácil. Depois eu vou me acostumar, sei que vou, e o que se seguirá será apenas a continuação daquilo em que me transformo hoje.

Resta saber quem serei eu depois de tudo isso…

Por favor, diretor, corta essa cena logo!

Ontem fui acordada e chamada de volta à realidade. Achei que fosse sábado, mas era apenas a terça-feira de uma semana quente do Rio. O tempo não passou nada. O pior é que sempre dizem que as dores curam com o tempo, não é mesmo? Hoje ainda é novembro de 2005 e tudo continua pior pra mim. Cada dia meu tem se transformado numa estranha mágica onde tudo parece possível e estranhamente legível. O minuto seguinte, a hora seguinte, o dia seguinte não representam mais o percurso natural do tempo como antes parecia me acontecer. O futuro me reserva sempre muitas surpresas e tenho receio disso, muito.

Engraçado como eu sempre adorei as surpresas e as quebras no meu cotidiano. Hoje, ou melhor, agora, rezo por um período de estabilidade. Nunca pensei em querer tanto, tão intensamente, que o mesmo permanecesse. Nunca desejei tanto que meus dias fossem iguais, que o esperado estivesse em seu lugar e que as surpresas estivessem a mil anos-luz de mim. Desejo descansar, mas não tem dado tempo, pois meu destino entrou em curto.

No final de outubro, comecei a atravessar uma larga avenida de mão-dupla, com sinal que fica vermelho por breves segundos. Não deu tempo de chegar ao outro lado e passou uma Besta sobre mim. Quando me levantava, ainda cambaleante, passaram algumas motocicletas que me deixaram tonta. Ainda tentando chegar ao meu destino, um ônibus escolar me deixou quebrada. Ainda me encontro no meio da rua, tentando atravessar, mas o sinal não fecha e os carros me deixaram em posição arriscada. Não sei se aguento mais um veículo passando sobre mim, muito menos um caminhão dirigido por um motorista embriagado. Não tenho condições de correr, não quero ficar parada, não sei voar. Até para respirar dói.

Quero ser uma pessoa comum, com dias comuns, que passa despercebida. Quero que o destino me esqueça. Quero não esperar nada do amanhã, além da possibilidade de acordar. Como meu pai me disse hoje: “eu preferia estar deitada embaixo da ponte”.

Minha saudade tem nacionalidade

“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da ruaA fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora.
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.”
Fernando Pessoa

Fotografia tirada por Lu�s Alberto em dezembro de 1993, no castelo de PenedonoNada melhor que buscar em Portugal, mais uma vez, as raízes do que sinto hoje. Meu coração se parte e a saudade dói como a dor dos portugueses que sonham por uma terra que já não se pode mais conquistar. A saudade hoje tem nacionalidade. Também tem trilha sonora, dos Madredeus. Canção: Matinal, mas pode deixar tocar todas as faixas do Existir. Carlos Paredes também deve ser lembrado e os Trovante merecem ser tocados nesta solenidade.

Olho para o Tejo, iludida com a aparência de um rio que parece mar. Vejo a ponte que me leva para o sul me apontando para o calor e para as paisagens alegres do Alentejo, mas sigo para o norte, Ribatejo, em direção à Serra do Caramulo. Passo por Viseu, mas lá não fico, lá não quero permanecer.

Sigo voando por sobre as montanhas e, apesar de não estar de carro, relembro o caminho da estrada que me leva a Penedono, onde há um castelo solitário, numa terra pouco habitada. Ali, por sobre o castelo, como uma gaivota distante de seu habitat, decido que preciso parar. Pouso e vou até o bar da esquina, que é onde eles guardam as chaves do castelo.

Abro a porta do castelo e corro até os pavimentos mais altos desta construção medieval, que apesar de antiga está em perfeito estado. Paro diante de uma escada, encosto-me numa das milhares de pedras que ali seguram aquela austera, porém belíssima construção. Aguardo que meu primo se coloque diante de mim para tirar esta foto novamente.

Ninguém nunca conseguiu tirar de mim uma imagem dessas. Seu olho me revelou de uma forma sensível, desarmada, relaxada e bonita, como nunca vi, como talvez nem eu soubesse que eu podia ser. Esta foto não me mostra a imagem de Luís, mas o modo como ele me enxerga. Meu jeito estabanado de dizer as coisas jamais parece ter lhe atingido, pois ele parecia, naquele momento, que me via além da mera forma, aparência ou das minhas defesas.

No dia do seu casamento, quando eu já estava arrumada, penteada e pintada para ser sua madrinha, perguntei-lhe: “que tal? como estou?”. E ele não pensou duas vezes ao me responder: “oh, pá, tás como és: belíssima”. Como posso deixar de sê-lo depois que ele me diz algo assim? Parte do que sou, seja por fora e, hoje, muito mais por dentro, é fruto da feliz e agradável sensação de alívio por ter conhecido nesta vida uma pessoa como Luís: a pessoa mais pronta que já encontrei. Saber que além de tê-lo conhecido, também pude participar de forma especial de momentos que para ele foram tão importantes e saber que parte do que ele carregava nos seus genes também está presente nos meus, me deixa orgulhosa.

A nacionalidade da minha saudade é mixturada, também como eu: angolana e portuguesa.

A nacionalidade do meu sentimento por Luís não existe, pois a língua que falávamos não era desse mundo.