Debaixo d’água por seis meses

Hoje Isabel faz seis meses. É verdade, ela se transformou muito, sobretudo exteriormente, tudo muito normal. Mas não tenho vontade de falar sobre as mudanças da minha menina, apenas das minhas, que foram sem igual na minha vida.

É incrível como o tempo tem passado tão rapidamente, ao mesmo tempo em que é vivido com tanta intensidade. Só dessa forma pode acontecer que, em tão pouco tempo, tanta coisa tenha se passado dentro de mim. Exemplo bom, mas besta, é que até mesmo testes de internet dão resultados completamente diferentes do esperado, pois minha tendência para dar determinados tipos de respostas se alteraram radicalmente.

Hoje, tudo o que vejo – fatos, notícias, leituras, conversas, imagens – invariavelmente me afeta de uma maneira diferente, pois tenho como referência outra pessoa. É como se eu tivesse dois pontos de vista sempre, ambos de mim mesma, só que um deles é o olhar de quem vê por entre as malhas tecidas por um outro ser.

Ser mãe é decididamente uma das experiências mais bizarras que uma mulher pode viver e, ao mesmo tempo, creio eu, das mais especiais. Tudo é tão novo e tão estranhamente previsível; inesperado e aguardado; espiritual e terreno; catártico e angustiante; cotidianamente distinto; relevante e postergável; potencial e já realizável. Tudo e nada, ontem e amanhã ao mesmo tempo agora. Tudo numa vida vivida por um fio de delicadeza: a nossa própria vida.

Talvez, uma experiência dessas, por mais estranho que possa parecer, só seja comparável à nossa própria morte.

Nascer, morrer, renascer, é mesmo bom viver…

Isto tudo lembrou-me Arnaldo Antunes, cantado por Maria Bethânia. Letra logo abaixo.

Debaixo D’agua
Maria Bethânia

Composição: Arnaldo Antunes

Debaixo d’água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água se formando como um feto
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia

Debaixo d’água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água ficaria para sempre, ficaria contente
Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia

Debaixo d’água, protegido, salvo, fora de perigo
Aliviado, sem perdão e sem pecado
Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia

Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasco lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
Agora

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Som bom

Não sou a única

Sou viciada em procurar novidades musicais. Confesso que, nos últimos tempos tem sido mais difícil, mas vou tentando na medida do possível. Minha amiga Lu resolveu me dar uma força e me apresentou ao Beirut. Há tempos não ouvia nada assim tão bom. Lembra a banda do Emir Kusturica a The no smoking orchestra.

A globalização afinal também tem coisas boas. 😉

Valeu Lu!

Fica com essa aqui e aproveita para baixar a The no smoking orchestra aí de cima…

Beirut – La Llorona

Ausencia, de Cesaria Evora

Trilha dos 7 anões

Desde que Isabel ganhou o CD do Palavra Cantada “Canções de Ninar” que as músicas fazem parte da sua trilha sonora. Eu, particularmente, adoro. E, sinceramente, não acho que vale a pena tocar para o bebê qualquer coisa que os pais não gostem, por mais que seja infantil. Ao menos enquanto a criança não pode escolher 😉

Para além disto, eu canto muito para a minha pequena. Noutro dia o pai até desconfiou que Isabel percebia quando ele desafinava. Disso eu não sei, mas sei que ela gosta muito da música Soneca, cantada pela Mônica Salmaso. Por, enquanto, puxou o bom gosto da mãe. Mas ela gosta mesmo é quando eu canto a música, apesar da minha voz não ser tão boa quanto a da Mônica original. Ainda é assim, é a maneira mais simples de lhe arrancar um sorriso.

Ai, filhos: fantásticos e insuperáveis.

Soneca

Xutos e Pontapés: Sem eira nem beira

A música abaixo é um verdadeiro sucesso aqui em Portugal. Política como só ela, como sabem ser os Xutos. Qualquer referência ao atual governo do “Senhor Engenheiro” Sócrates não é coincidência. Abaixo também vai a letra.

Sem eira nem beira

Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um passou – bem

Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar
Despedir
E ainda se ficam a rir
Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter
Uma vida bem melhor

Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir
Encontrar
Mais força para lutar…

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer

É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir

Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar
A enganar
o povo que acreditou

Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar…

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a foder

Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão

Carneirinho 1, 2, 3