Karma e início de ciclos antigos

Some people misunderstand the concept of karma. They take the Buddha’s doctrine of the law of causality to mean that all is predetermined, that there is nothing that the individual can do. This is a total misunderstanding. The very term karma or action is a term of active force, which indicates that future events are within your own hands. Since action is a phenomenon that is committed by a person, a living being, it is within your own hands whether or not you engage in action.

Dalai Lama

Segundo o Budismo, o karma são as ações do indivíduo no mundo, sejam elas boas ou não. Portanto, diferente de como se aplica o uso do termo, o karma não é um fardo difícil de carregar, uma espécie de “castigo”, derivado de outras vidas, inescapável por princípio. Ao contrário, o karma sugere que é preciso rever as próprias ações na vida presente, uma tarefa que não é assim tão complicada, se imaginamos que viver pode ser como escrever um texto – a versão final pode nem ser perfeita, contudo não se chega a um bom texto sem antes revisá-lo.

Quando penso a crise em Portugal, não há outra palavra mais adequada para definí-la: é kármico. Mas, é bom dizer, não é que seja inescapável por princípio, não estava previsto por princípio que Portugal entraria em tamanha crise econômica e política; mas, houve escolhas infelizes que foram feitas. Eu me pergunto: desde que Portugal entrou para a UE o que efectivamente fez para que crescesse e deixasse de ficar na periferia da Europa?

Agora, em Portugal um novo ciclo parece querer se iniciar, ou re-iniciar. Novas levas de emigrantes portugueses em breve chegarão ao Brasil e a muitos outros países bem mais distantes… Não irão de navio, como o meu pai; não chegarão com pouca educação, como os imigrantes dos séculos XIX e XX em busca do Eldorado; não querem ser padeiros, nem pasteleiros, como seus avôs ou bisavôs emigrados; leram Fernando Pessoa, ouvem música inglesa e falam inglês com fluência, às vezes também espanhol;  não querem mais a França, nem a Suiça, nem a Alemanha porque já nem há tanto lugar assim para eles como antes; a América talvez seja coisa do passado também…

Quem vai ficar, então: os idosos; os que tiverem bom emprego; os que não tiverem dinheiro para sair; os que têm medo ou outras não-coragens ; crianças com suas avós e algumas exceções, pois estas há sempre. Ando aqui a perguntar-me – como se pergunta um português -, o que eu vou decidir. Ainda não sei, mas ando pensando bastante. Tenho no máximo 2 a 3 anos para fazê-lo. Até lá, vou tentar manter o meu bom karma…

Pequena lição de gramática

A solidariedade e o respeito ao próximo não são patentes de nenhum credo. Embora muitas religiões reclamem para si o direito de defesa dos princípios considerados mais nobres, estes mesmos princípios não lhes pertencem.

Houve um tempo, antes de a minha filha nascer, em que eu acreditava que uma religião, ou alguma religião, seria necessária para a formação de uma criança. Hoje, não vejo as coisas desta forma. Isto porque minha atual concepção de religiosidade é de tal modo íntima e pessoal, que eu não creio que qualquer um dos modelos existentes seja suficiente, às vezes até necessário, ao desenvolvimento religioso da minha pequena.

A religiosidade enquanto modo de ligação ou acesso ao que é da ordem do transcendente, é uma coisa que para mim é cara. Pode haver os que me considerem mística e, por vezes, até bem estranha, mas não posso ignorar a presença constante do fato espiritual no meu cotidiano. Não é simplesmente uma questão de fé.  É uma espécie de hipertexto escondido na minha página pessoal que pode reconfigurar meu modo de ver e agir no mundo em todos os cenários em que tenho um papel qualquer, inclusive quando eu estou “apenas” dormindo.

Um exemplo. Quando eu tinha 8 ou 9 anos lembro de me pegar pensando seriamente sobre a questão da morte. Até esta época eu nunca tinha perdido ninguém próximo e nem sequer tinha ido a um funeral. No entanto, refletia a respeito e comecei a acariciar a ideia de que somos nós que determinamos quando devemos morrer, que a morte seria mais um produto de uma escolha do que uma simples fatalidade. É verdade que é certo que um dia morreremos, mas o limite de nossa vitalidade seria um ato da própria vontade. Que isto não se confunda com o suicídio… Até hoje esta ideia faz muito sentido para mim, embora ela tenha sido pensada em tão tenra idade.

O que mais me incomoda nos principais modelos religiosos existentes é a sua exterioridade: diretrizes de caráter coletivo; rituais; processos; proselitismos; caráter messiânico; apropriações indevidas de ideias, valores e perspectivas sobre o que deveria pautar as relações sociais; determinações do que é sagrado e do que não é. Quanto mais exterioridades, menos respeito parece haver pela auteridade, isto porque muita exterioridade parece imposição de representação. Não é novo o que eu vou dizer, mas infelizmente, muito atos de desrespeito ao próximo aconteceram e ainda acontecem em nome de uma crença religiosa.

Sinceramente, rezo para que um dia os seres humanos sejam capazes de se respeitarem independentemente de suas crenças. Enquanto isto não acontece, tentarei educar minha filha a respeitar todas as que existem. Espero, contudo, que ela não ignore o fato de que esta mesma multiplicidade religiosa, que deve ser respeitada, é principalmente uma amostra de como a espiritualidade pode ser uma maneira muito particular de lidar com o infinito em nós. Que minha pequena seja muito bem-vinda à descoberta do seu próprio universo sagrado de possibilidades. Afinal, religião é um verbo que se conjuga muito bem na primeira pessoa do singular.

Perigos da criação

Em plena época de crises financeiras, conflitos planetários e aumento dos impostos, parece que não estou em fase de ir além do meu próprio umbigo. Não me recordo quando escrevi aqui um post decente. Na verdade, não me recordo quando escrevi algo decente.  É fato que o processo de embotamento criativo começou muito antes do nascimento da Isabel, mas minha pequena parece ter levado a um subsequente apagamento da tênue chama de idéias que ainda restava. Daí o vazio.

Pausa.

Espero que as coisas mudem. Esta fase já está me aborrecendo.

(Ligaçao em espera até a TPM passar…)

Portugal, o Estado e a falta de jeito

Há tempos venho refletindo sobre o Estado e a mentalidade do cidadão em Portugal. Obviamente que isto dá muitas teses de doutorado e não consigo expor tudo o que há num post. Mas vamos ao que me interessa…

Sou brasileira e na minha vida, efetivamente, o Estado brasileiro esteve realmente muito presente na minha educação. Só. Nunca contei com o Estado para muito mais além disso. Nos outros campos onde o Estado esteve envolvido durante os 36 anos e meio em que lá vivi, de modo geral, tem sido mal sucedido. É verdade que tivemos uns 30 anos de ditadura, mas não percebo este estado autoritário como bem sucedido do ponto de vista de sua influência na minha vida cotidiana, pois, exceto mesmo pela minha educação, como disse, nunca contei com o estado para mais nada.

Fico realmente aparvalhada quando formam-se vários movimentos que receiam uma “espécie de comunismo” no Brasil. Sinceramente, não vejo qualquer possibilidade de haver estado comunista ou algo que se assemelhe no Brasil. Parece incrível o que vou dizer, mas a estrutura do “jeitinho” que nos parece um defeito quando vamos aos países desenvolvidos é também um trunfo que temos. O “jeitinho brasileiro” é a possibilidade de contínua e imprevisivelmente reverter o fluxo das coisas e alterar os resultados. Nos dias de hoje, não há nada mais original e à frente do tempo. No Brasil, temos é que aprender a utilizar isto de modo a integrar a todos, para construirmos uma nação forte. Ressaltando: nação e não Estado forte. Isto porque a idéia do “jeitinho” seria muito interessante se utilizada com vistas ao coletivo também e não voltada exclusivamente para o ganho pessoal – até porque, do ponto de vista pessoal, no Brasil, sempre foram muito poucos os que ganharam com este “jeitinho”.

Estado forte, provedor, presente, tal como na Inglaterra, França… e até em Portugal pode ter tido seu lado bom. Mas acho que precisamos de um lugar no meio entre a ausência e a enorme presença do Estado. A ausência do estado causa danos à cidadania muito difíceis de lidar. Pode-se ver isto na história do Brasil e, atualmente, vemos o extremo do Haiti. Contudo, creio que sua presença maciça também causa muitos “traumas”.

Como conciliar interesse pessoal e coletivo? Sinceramente, não sei ainda, estou na busca de entender esta questão. Já sabemos que a resposta não está nem no comunismo e nem no liberalismo. Mas sei que, aqui em Portugal, paira um ranço de uma história que insiste em se reinventar e me leva a temer meu futuro e o de minha filha. Não há nada o que temer especificamente, pessoalmente, nenhuma ameaça, se é isso que se quer saber. Mas eu temo por não saber lidar com o fato de que o Estado aqui é previsível quanto a sua disposição em dificultar as coisas e tomar partido no nosso lugar.

Além disso, em Portugal, há uma postura de inflexibilidade que independe de partidos políticos ou de posição social, que independe da figura de poder que lá esteja, pois parece ter penetrado na alma de grande parte dos que nasceram e foram criados aqui. Admiro cada vez mais meu pai que, ao ver este cenário reproduzido dentro da sua casa, resolveu dispor do futuro de modo mais criativo para si e, consequentemente, também para mim. E é provável que minha filha também tenha muito a ganhar com isto.

Decididamente, falta jeito a Portugal. Dava-lhe jeito, como se diz por aqui. Acho que os que tem esta espécie de jeito vão-se embora. Talvez eles pensem, tal como Eça de Queiróz, que Portugal não é um país, mas apenas um sítio, um lugar e, em última instância, uma espécie de feudo onde já existe senhor e nada mais se pode fazer além da mera vassalagem.

Sê teu filho

Estou na sala. Vejo tevê, o filme Mentes que brilham, da Jodie Foster que, pelo título, pensava que era o do gênio esquizofrênico. Ok, a confusão começa a não ser tão má.

Isabel sassarica pela sala. A cada x tempo ela pára o que faz e me observa. Olha nos meus olhos, eu lhe devolvo o olhar e sorrio. Ela me devolve o sorriso e continuamos a fazer o que fazíamos: ela volta a sassaricar e eu a ver o filme da Jodie Foster. O filme, porém, não me absorve ao ponto de eu não pensar e me pego a imaginar a importância dos meus olhares e sorrisos a cada vez que Isabel me observa. Vê-se facilmente o valor que tem para ela aqueles breves instantes de atenção e troca.

Amar também é ter atenção aos pequenos detalhes, é um bater de cílios na direção certa. A onda tissunami emocional que isto gera é incompatível com a linguagem e com quaisquer experiências prévias.

Viver a maternidade é mesmo um presente único que a vida nos concede.

Um 2010 vivido plenamente, é o que desejo a todos.

Corpo e espírito

Esta semana um professor católico que trabalha aqui no instituto falava a uma aluna acerca das relações corpo-espírito, em particular do modo como o espírito sofre os constrangimentos do corpo. Este tema está longe de ser uma novidade para mim. Em minha formação ecumênica sempre me deparei com esta questão. Mas, nunca, creio eu, me senti, eu-espírito, tão profundamente suscetível às vicissitudes impostas pelo meu corpo.

Não é simplesmente a idade, mas eu diria que é sim a idade e meu atual status de adulta-madura-responsável-independente-profissional-mãe-consciente-espiritualizada-decidida-autônoma-imigrante-cidadã que pesa toneladas sobre a minha alma. A vida, com tudo o que tenho direito – dia-a-dia, responsabilidades, corpo, relações, hemisfério do planeta, continente, distâncias, timing, karma, parece estar conspirando para a minha própria redenção espiritual. Logo, estou física, psíquica e espiritualmente muito cansada. No entanto, o corpo cansado e a vida sobrecarrecaga deixam qualquer espírito inseguro e reticente. Isto não é nada comparado com muitos descaminhos que existem por aí. Mas, a cada um seus próprios passos e fardos.

Claro que já estive cansada na minha vida. Isto já me aconteceu várias vezes. Contudo, hoje, preocupo-me mais com meu bem-estar físico e mental que antes, pois existe Isabel.

Ontem, por exemplo, me peguei preocupada com a possibilidade de eu vir a lhe faltar antes de ela ser adulta. Se isto acontecer, acredito que ela ficará muito bem com o pai, mas preocupo-me com as outras pessoas que podem diretamente influenciar na sua educação. Eu sei que estou longe de ser o exemplo perfeito de ser humano para ela. Mas, garanto, minha idéia de educação envolve um conjunto de aspectos que sei que a maior parte dos que ficarem ao seu lado não ligarão nem um pouco. Mas, também sei, este tipo de preocupação é apenas uma das muitas vicissitudes que meu corpo impõe ao meu espírito.

O que me vale agora é que reuno um arsenal de idéias, vivências, técnicas, livros, músicas, reflexões, conhecimentos deste e d’outro mundo que me levam a ver tudo ainda de forma otimista e confiante. Além disso, a cada dia que acordo, respiro fundo e oro para que tudo corra bem até o final do dia. Ah, e é claro, vejo Isabel sorrindo e tudo fica muito diferente.

Não sei como fazem os que não crêem em nada para além deste mundo e nem têm alguém que amem. Mas, suspeito de que seja o psiquiatra que acabe virando o centro de suas atenções…

Pensamentos de ontem à noite

Perguntaram-me como eu aguentava viver “aqui” [em Portugal]. Não entendi exatamente a pergunta, até porque não sabia a que problema do país se fazia referência. Com a confusão, conversa vai, conversa vem, acabei não respondendo. Respondo agora que o aqui pode ser qualquer lugar: o que me importa na vida agora é estar ao lado das pessoas certas.

***

A sirene toca lá fora.
Surgiu-me a dúvida:
De que nos adiantará fugir?