Cortázar

Leio ” A volta ao dia em 80 mundos”. Recordo-me o quanto gosto do Cortázar. Se eu pudesse escolher como eu gostaria de escrever eu diria que queria escrever tal como ele.

Abaixo, o três primeiros parágrafos do delicioso “Do sentimento de não estar totalmente”:

Serei sempre uma criança para muitas coisas, mas uma dessas crianças que desde o princípio trazem dentro de si o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega realmente a adulto, acontece que este traz também dentro de si a criança, e nel mezzo del camin dá-se uma coexistência raramente pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Tudo isto pode entender-se metaforicamente, mas em qualquer caso é indicador de um temperamento que não renunciou à visão pueril como preço da visão adulta, e esta justaposição que faz o poeta e talvez o criminoso, assim como o cronópio e o humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora brinco, agora mato) manifesta-se pelo sentimento de não estar totalmente em nenhuma das estruturas, das teias que a vida arma e nas quais somos simultaneamente aranha e mosca.

Muito do que tenho escrito se pode definir sob o signo da excentricidade, uma vez que jamais admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver chego a dissimular uma participação parcial na minha circunstância, não posso por outro lado negá-la naquilo que escrevo, uma vez que escrevo precisamente por não estar ou por estar de forma parcial. Escrevo por defeito, por deslocação; e como escrevo a partir de um interstício, estou sempre a convidar os outros a procurem os seus e a olharem por eles, o jardim onde as árvores dão frutos que, obviamente, são pedras preciosas. O monstrinho continua firme no seu lugar.

A história vem com o tempo

Em novembro de 2009, eu escrevi aqui neste blog um artigo que, salvo pequenas alterações, também foi publicado no Observatório da Imprensa no dia 10 de novembro. Neste, eu dizia que:

[…] o suposto receio do avesso da democracia ou de um regime autoritário, expressado em outros canais, para além do editorial do Estadão, parece mais um desejo de que isto assim se dê. De fato, a maioria dos da minoria, que hoje reclamam, colaborou em anteriores governos autoritários. Logo, não creio que, para esta minoria, a democracia seja realmente o melhor dos mundos.

A idéia não era fazer defesa do atual governo, entretanto parecia previsível que havia qualquer ranso pré-64 no ar, muito embora eu não fizesse parte do mundo dos vivos nesta época e não saiba narrar o sentimento que pairava então.

Pois bem, creio que vale a pena a leitura da bela análise de conjuntura feita por Luís Carlos Azenha em seu blog. Por conjuntura quero dizer as relações entre os meios de comunicação e o poder.

Outra coisa, mas ainda no mesmo sentido.

Para além disso, assusta-me que algumas pessoas que aprecio e conheço pessoalmente estejam observando as coisas por vieses ultra-direitistas e lulofóbicos. Para mim, toda aversão obscurece o pensamento e bitola a alma. Não sou petista, não sou de esquerda, nunca fui comunista, nem militante de coisa alguma. Minha causa é humana acima de tudo: pela paz dos corpos, dos espíritos e pela boa convivência entre tudo e todos. Vivo em busca disto e com base nisto educo minha filha.

Leitura de um Brasil: o inferno da minoria maioral

Estou fora do Brasil há apenas dois anos e meio, mas me impressionam algumas idéias de quem está no país.

Um exemplo. Após ler o editorial de hoje do Estadão, indicação do Senador Cristovam Buarque,  fico espantada com o modo como Lula e a possível reeleição do PT, através de Dilma Rousseff, ameaçam uma “minoria”. Até porque foi justamente essa mesma “minoria” que, indiretamente, “permitiu”, pode-se dizer, a primeira vitória de Lula. Lembro-me perfeitamente que o próprio Fernando Henrique Cardoso, nas entrelinhas, conduzia a esse processo e mesmo os veículos de comunicação pareceram incrivelmente levantar bandeira branca, deixando de criticar demasiadamente o candidato petista em 2002. A questão foi que o candidato, após eleito e reeleito, cresceu de tal forma que saiu do controle dessa “minoria”. Sobre isto, recordo inclusive de uma entrevista de Franklin Martins à Caros Amigos, após a reeleição de Lula, em que afirmava que a “era da pedra no lago” tinha acabado.

Para mim é evidente que até o primeiro mandato de Lula havia certo controle sobre o que se fazia no governo. Contudo, após a reeleição, no jogo do poder, Lula passou a ter mais vantagem. Agora, a antiga “minoria” padece incrivelmente do “mal” de ser minoria de fato, diante de um apoio popular que supostamente extrapola qualquer controle que antes se exercia mais facilmente. Logo, vejo que o suposto receio do avesso da democracia ou de um regime autoritário parece mais um desejo de que isto assim se dê, afinal, a maioria dos da minoria que hoje reclama colaborou em anteriores governos autoritários. Não creio que para a minoria a democracia seja realmente o melhor dos mundos.

Democracia, porém, pressupõe imprevisibilidades, na medida em que a escolha é feita pela maioria, como consequência de uma luta em que, no mínimo, duas partes querem o mesmo, mas só uma ganha.

Uma coisa nisso tudo acho que é boa: a minoria talvez comece a perceber que deve aprender a fazer oposição, já que até então não sabia exatamente o que isso era. A história do Brasil seguia sempre a cartilha da alternância do poder que, como uma ladainha, chegava sempre ao mesmo lugar, sempre ocupado pela minoria. Porém, agora, precisam gastar muito mais que saliva, tinta e bytes para convencer milhões de votantes que, ao invés de Lula ser a encarnação do anticristo, serão eles mais capazes de governar para a maioria.

Bibliofilia

Pode-se dizer que é esta a doença que eu tenho, e que piora com a idade.

Acabei de receber um aviso da Amazon.uk que meus quatro livros encomendados chegam na semana que vem. Uau! São mais acadêmicos, é verdade, mas fico animada como se fossem possíveis de serem devorados como os da Agatha Christie.

A minha listinha “singela”:

Da até canseira. Com s, é claro. 😉

Detalhe “singelo”: eu nunca comprei e nem li nada da Agatha Christie…

Sobre o que escrevi há dois posts do livro do Pepetela, adianto que um livro já foi encaminhado a uma amiga.

Vamos ver se o dou a mais alguém.

Embora o tempo…

Embora o tempo seja escasso e precioso, escolhi dois livros novos para ler: Leite derramado, último do Chico Buarque, e Jesusalém, último do Mia Couto. Meu critério é sempre o mesmo, leio o primeiro parágrafo e ponto. Não há nada tão difícil quanto escrever um primeiro parágrafo de uma narrativa e, nestes dois livros, os autores foram excelentes no começo. Além disso, há que se considerar o preço, pois estavam em promoção.

Para quem quer saber, no link de Leite derramado tem o primeiro capítulo. De Jesusalém, que começa com epígrafe de Sophia de Mello Breyner Andresen já citado neste blog, vale reproduzir o começo:

A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.

Ótima leitura!

Negócios com o tempo

livro gianettiRecomecei a ler um livro que tive que abandonar há anos para concluir a tese de doutoramento: O valor do amanhã, do Eduardo Giannetti.

Muitas vezes faço isso: começo a ler, vão-se dois ou três capítulos, depois páro e nunca mais pego no livro. Mas resolvi que vou pegar os livros que ficaram nesta condição para decidir se merecem ser lidos até o fim ou não.

Recentemente, por exemplo, cheguei à conclusão de que um livro já começado não merecia ser lido até o fim, em especial após a leitura do Pepetela. O livro também falava de Angola, embora seja de um escritor português. Mas o problema não é a nacionalidade, mas talvez tenha a ver com a idade, não sei, pois é um autor bem mais jovem que o experiente angolano. No fundo, sua narrativa, apesar de atraente, era apenas mais um romance, com a peculiaridade de colocar a Luanda da luta pela independência como cenário de fundo. Cheguei a falar sobre ele aqui no blog, ano passado, quando ainda estava grávida. Na ocasião, achava que não ia conseguir ler com o sono que eu tinha por causa da gravidez. Mas hoje vejo que, apesar de não ter sono mais quando o leio, preciso ser muito prática quanto ao tempo que devo dedicar às leituras. Acho que isto é uma consequência da minha condição de mãe-sem-tempo-de-fazer-muita-coisa que me leva a ver meu pouco tempo livre como algo sagrado. Por isto, talvez, Giannetti tenha mesmo vindo a calhar.

Em O valor do amanhã, Giannetti pretende mostrar como a noção de lucro ultrapassa os limites da economia e se encontra presente em vários aspectos da vida humana, desde a biologia da evolução até a morte e depois dela, em particular, com as diversas interpretações religiosas sobre “o lado de lá”. Reli apenas o primeiro capítulo e o livro é grande. Também não é um romance ou algo que o valha e, segundo o próprio autor, é para os leitores que ainda tentam ler nas entrelinhas do texto e param para pensar no meio da leitura. Portanto, sabe lá quando digo que o acabei.

Além disso, devo escolher outro livro para ler também, muitos do que estão na estante a espera da minha atenção. Quando souber, digo.